Tristeza, o adeus a Carvalhinho

O catarina Ilmar Carvalho, jornalista e crítico de música popular brasileira, morreu esta manhã (27/02/2018) no Rio de Janeiro, aos 90 anos. Natural de Joinville, foi um excelente cronista. Viveu na malandragem carioca, junto com Pixinguinha, Zé Keti, Haroldo Carvalho, Paulinho da Viola, Cartola, Beth Carvalho e tantos outros.

Ficou 10 anos como jurado do carnaval carioca. E deixou uma crônica polêmica, produzida no começo dos anos 60: “Para ser jovem no Estreito”. Foi um embaixador catarinense no Rio de Janeiro e reuniu umas das mais respeitáveis coleções musicais em disco, CD, etc…

Abaixo, uma reportagem que produzi com Carvalhinho no Rio de Janeiro.

BOÊMIO APAIXONADO

Por Laudelino José Sardá
Especial para o Notícias do Dia

Ilmar Carvalho, jornalista e escritor, trocou a boemia de Florianópolis pela cultura carioca no final dos anos 70, sem, contudo, renunciar à indolência da vida noturna. Transformou-se em um apaixonado crítico da música popular brasileira e integrou, por vários anos, o júri do carnaval carioca. “O compositor de marchinha sumiu, dando lugar aos músicos de Sapucaí, Nego Quirido e outras passarelas de escola de samba”, observa Carvalhinho, para quem o Carnaval só não despareceu por teimosia do povo, que gosta de se divertir nas ruas, salpicando a folia com as marchinhas tradicionais.

“‘Allah-La Ô’, de Haroldo Lobo, ‘Touradas de Madri’ e ‘Chiquita Bacana’, de Braguinha, ‘Aurora’, de Mário Lago, ‘Pastorinhas’, de Noel Rosa, ‘Cachaça não é água’, de Carmen Costa,‘Máscara negra’, de Zé Keti, ‘Me dá um dinheiro aí’, de Ivan Ferreira, e ‘Mamãe eu quero’, de Jararaca e Vicente Paiva, são músicas cantadas até hoje nas ruas. Agora, qual o brasileiro que canta por inteiro as músicas de escolas de samba? Claro, os que desfilam nas escolas as decoram, mas as marchinhas, bem como o frevo em Pernambuco e os rituais de culto africano da Bahia, predominam e caracterizam bem o entrudo nesses Estados”, diz ele.

Ilmar nasceu em 1925 em Joinville e passou grande parte da vida em São Francisco do Sul, onde casou e teve cinco filhos. O pai César Augusto Carvalho foi um jornalista irrequieto e provocador, enquanto a mãe Ritinha cultivou a sobriedade da família de Jaraguá de Sul, de origem germânica. Mas foi em Florianópolis que Carvalhinho viveu intensamente. “Eu simplesmente não dormia; esperava pelo sol bebendo no bar ou no restaurante da Trajano”, lembra em meio a gargalhadas.

“O interessante é que nunca faltava amigo para beber. Bebíamos só em dia de feira: de segunda a sexta, mas no sábado e no domingo sempre havia outras feiras”, afirma Ilmar, que desaprendeu o sotaque germânico para assumir a verborragia cultural da Ilha. Prestes a se mudar para o Rio, Carvalhinho lançou, em meados dos anos 70, um livro de crônicas intitulado “A vantagem de ser jovem no Estreito”. E inicia o primeiro texto afirmando: “nenhuma”. Nessa época, ele residia no Balneário do Estreito e confessa: “nunca senti nada por esse bairro, porque a boemia estava na Ilha ou em Coqueiros”.

A musicalidade perdida

O jornalista lembra que havia no Estreito um bar cujo principal frequentador era o ex-governador Aderbal Ramos da Silva. E, é claro, “o bar lotava de puxa-sacos do doutor Deba”, dispara Carvalhinho, que em 2015 chega aos 90 de existência. Era no jornal de Aderbal – “O Estado” – que ele publicava suas crônicas e reportagens. Quem sabe inspirado em João do Rio – o jornalista-cronista que reportava para o papel o dia a dia das ruas cariocas –, Ilmar tenha se apaixonado pelo cotidiano da Ilha.

“Era uma maravilha! Comia-se e bebia-se muito bem, Além disso, era impossível não enxergar amigos na rua Felipe Schmidt e adjacências. Todo o dia era de festa, isto porque a Ilha era de música, de poesias. Zininho era o papa musical, mas havia muitos cardeais dos bons. Além disso, existiam as figuras folclóricas, a ‘Marta Rocha’ e outros personagens de rua”, lembra.

Para Ilmar, marchinhas carnavalescas de Florianópolis tinham o alcance de sucesso das do Rio de Janeiro nos anos 60 e 70. “Quem subir lá no morro/Vai ver a magia que o morro tem/vai ver cabrocha gingando/vai ver a roda de samba…” Essa música de Zininho é maravilhosa, como outras desse mestre da música: “A rosa brigou com o jasmin/Ficou tão triste, sentida…” E, de repente, a Ilha perde a sua musicalidade, a sua poesia. Por quê?

Política interferiu na cultura

Ilmar Carvalho explica que a cidade convivia com os poderes municipal, estadual e federal e, assim, prevaleceram os interesses políticos em detrimento da cultura, da identidade social.
“Se formos comparar, Florianópolis tem um potencial cultural bem mais significativo que o Rio. Só que os cariocas foram fiéis às suas tradições e aos seus valores culturais, enquanto a Ilha perdeu-se na mistura de regionalismos fortes, como o gaúcho, paulista e mesmo o carioca. O Rio sempre foi a capital cultural do país. Saíamos do ‘Correio da Manhã’ e íamos direto para o Bottle, Litte Club, o Bossa Nova, o Papagalo, enfim a boemia corria solta. Em Florianópolis não era diferente, porque era uma Ilha recheada de magia e que precisa resgatar e valorizar a sua cultura, sob pena de ser uma cidade qualquer rodeada água por todos os lados”.

Carvalhinho ressalta que as gestões da política de miséria não comprometeram a cultura do Rio. “Teatro, shows musicais e outros espetáculos refletem um Rio cheio de vida cultural. E por que a Ilha não pode ser igual? Porque seus gestores não querem. Florianópolis não pode perder a sua boemia, sua poesia, sua musicalidade, a sua magia e seus valores. Ou será que já virou uma cidade de descartáveis? Ela não pode trocar valores históricos e culturais pelo descartável”, adverte.

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