Tudo é mais ou menos o mesmo do mesmo

As generalizações sofrem do mal da dispersão: quanto mais ampliada, mais tênue e inócua ela vai ficando. Mas, o assunto de hoje é o surgimento de um negócio, uma atividade produtiva, um empreendimento que se espera viceje e seja muito próspero com benefícios para os investidores, para os consumidores e para a sociedade como um todo.

pensando

Enfim, uma grande responsabilidade. Por isso, é lícito que se espere uma série de qualidades – habilidades técnicas, comportamentais e morais de quem está ousando entrar no escorregadio e tortuoso mundo dos negócios.

Mas, perdoem-me a petulância, na prática, em geral as coisas acontecem muito antes pelo contrário. Respeito todas as ponderações que vierem – à favor, contra ou inconformadas.

Tem gente que vai pular da cadeira – e com carradas de razão – vai protestar; tem gente que vai pular da cadeira – e com toda a razão – vai aplaudir; tem gente que vai permanecer sentada – e com muita razão – vai dar de ombros, fazer um muxoxo de enfado e vai trocar de canal.

Para acalmar os ânimos lembro da sabedoria popular que diz “que há gosto para tudo”, “que uma desgraça puxa a outra”, que “água mole…” e vai por aí a fora. Enfim, “tudo como antes no quartel de Abrantes”.

A invocação dessas obviedades me vêm à memória quando penso no começo de nossa vida publicitária – minha e do Rozendo: muito sonho, entusiasmo, gana de vencer, fazer algo diferente, marcar o nosso espaço. Mais ou menos como você faria ou fez, seu colega idem e assim por diante.

Por exemplo: nós estávamos cheios de boas intenções, mas nos faltavam recursos financeiros e conhecimento de administração.

Outra coisa: experiência, Know How (ih, isso é tão velho que nem se fala mais – agora é expertise, isso?) nem pensar. Então, o que nos levava pra frente? Garra, coragem, desprendimento, vontade de vencer, decisão: nós vamos vencer. E pronto!

Passados mais de cinquenta anos desse evento – a fundação da agência A.S Propague – e mais a observação de outros exemplos é que me dei conta de que na grande maioria das vezes, nossos colegas seguiram caminho semelhante: colocaram o bloco na rua e foram equilibrando as melancias a medida que o caminhão rodava na estrada esburacada.

Isso é um mal, um bem, uma irresponsabilidade, uma genialidade, uma aventura? Tudo isso, mas ainda assim, o saldo é altamente positivo.

E se olharmos para o histórico das hoje grandes empresas tanto na área de comunicação, como na indústria e no comércio vamos encontrar uma similaridade bastante semelhante.

Para que essas considerações sejam percebidas com mais evidência reuni alguns casos para ilustrar essas idéias, que longe de representar uma crítica é, antes de tudo, a confirmação de uma tese que defendo há longo tempo como pessoa, como profissional e como empresário: o valor maior em todo esse composto está no caráter das pessoas envolvidas e não nos seus recursos financeiros, técnicos ou de apadrinhamento.

Sim, há controvérsias e as exceções existem e isso é bom. Porque a controvérsia depura as arestas e as exceções comprovam a regra.

A propósito, chamo o testemunho do radialista e empresário blumenauense, Altair Carlos Pimpão que me contou a seguinte historia:

JP – Uma agência com J de Jacobsen e P de Pimpão

Já nem lembro mais o ano exato, foi lá pelo final da década de 1950, juntamente com Osni Wilson Jacobsen, criei (Altair Carlos Pimpão) a JP Publicidade, que foi a primeira agência de propaganda de Blumenau. Compramos da Rádio Difusora de Itajaí um gravador de acetato, bem como um gravador de fita, da marca Philips, e produzimos os primeiros spots e jingles catarinenses.Depois criamos também, na JP, o Serviço de Proteção ao Crédito.

Rua XV de Novembro nos anos 50. Foto: Arquivo Histórico de Blumenau.

Rua XV de Novembro nos anos 50. Foto: Arquivo Histórico de Blumenau.

Prestávamos serviço às lojas de Blumenau. Aí briguei com o meu sócio. Motivo: Éramos donos do SPC e o primeiro que teria de ser cadastrado como péssimo pagador era o próprio Jacobsen. Retirei-me da agência e logo depois fui para a Rádio Deutsche Welle, em Colônia, na Alemanha.

Nossa agência estava situada na esquina da Rua XV com a Padre Jacobs, num prédio de poucos andares. Da nossa janela víamos a Torre da Igreja de São Paulo Apóstolo, bem em frente.

Como fiz o texto e minha mulher a música, que interpretou ao piano, com a participação de toda a família, gravamos o primeiro jingle barriga-verde para a Cerealista Catarinense. (Quando você vier aqui para gravarmos o Mesa de Bar, cantarei para você. E, brincalhão como ele só, arrematou: Dizem que sou parecido com o Plácido Domingo, mas cantando não tenho o mesmo talento). Voltando à narrativa.

Até a criação da JP Publicidade a gente tinha que viajar oito horas até Curitiba e gravar no Eugênio, que você deve ter conhecido. Era no primeiro andar daquele prédio que virou Bamerindus e agora HSBC (banco que não existe mais, acrescento eu) onde todos os anos acontecem os Concertos de Natal, com as crianças postadas nas janelas. E no Eugênio só gravava locutor bom. Não tinha gravador de fita. Era locução direta no acetato. Errou. Faixa inutilizada com cera amarela.

Meu amigo, só não fui cantor de tangos. Mesmo assim, certa vez o (publicitário) Getúlio Curi me convidou para irmos à Boite Cadiz, onde ele apresentava o programa O Tango Abraça o Samba, com a participação de Leo, El Morocho, um uruguaio que era programador da Rádio Tingui (de Curitiba).

Chegando lá, o bandido me botou no fogo. Anunciou minha presença e que eu iria apresentar o programa naquela noite. Eu, que era um tímido locutor de cabine, não tinha a desenvoltura de um Antunes Severo, tive que me virar. Como não apanhei dos habitués, nem fui arranhado pelas damas da noite, acredito que foi uma estréia razoável.

Caro leitor, descontadas as confidências do amigo Pimpão, esse é mais ou menos o perfil inicial de boa parte dos profissionais e empresários da comunicação que conheço. E olha, que entre eles estão algumas das cabeças coroadas que construíram e continuam honrando a grandeza do negócio da propaganda no estado de Santa Catarina.

Porque, a final, no frigir dos ovos, tudo é mais ou menos o mesmo do mesmo. Apenas o que difere é o tempero exclusivo que cada um nós coloca na sua maneira de fazer as coisas.

Este artigo faz parte da série Apontamentos para a História da Propaganda em SC.

1 responder

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *