Tudo que devo ao rádio

Em minha infância, nos anos 1940 e 1950, o rádio era o único meio de comunicação eletrônica que chegava ao interior do Estado de São Paulo, à minha vila natal de Aparecida de Monte Alto, na região de Ribeirão Preto. Minha família, embora vivesse praticamente num ambiente rural, tinha elevado acesso às notícias e à informação sobre o Brasil e o mundo daquela época – pois ouvíamos diariamente as maiores emissoras de rádio do País, com destaque para as rádios Tupi, Bandeirantes, Record, Mayrink Veiga e a Rádio Nacional do Rio de Janeiro – e recebíamos dois jornais diários, o Correio Paulistano e o Estadão (exceto no tempo em que este jornal permaneceu ocupado pela ditadura Vargas, de 1940 a 1945, período em que passamos a ler o Diário de São Paulo, de Chateaubriand).
O rádio em nossa vida

Éramos dez irmãos. A vida em família nos preparava para a vida em sociedade. E, mais do que tudo, o exemplo dos pais nos ensinava e estimulava a ouvir rádio e a ler jornais, hábitos que eu e meus irmãos conservamos para o resto da vida. Pelo menos em meu caso pessoal, mesmo com todos os novos meios de comunicação que vieram depois – como TV, internet, iPods, tablets ou smartphones –, nunca deixei de ouvir rádio e de ler jornais.

Minha vocação para o jornalismo talvez tenha nascido naqueles dias, pois meus pais costumavam ler em voz alta os melhores artigos e editoriais para os filhos que se interessavam por alguns temas. Ao longo dos últimos 60 anos, fomos politizados por discussões calorosas que começaram em casa e continuaram no colégio e na universidade, ao debater temas tão variados a partir da redemocratização do País em 1945, à guerra fria, à criação da Petrobrás, ao golpe de 1964, à censura do Estadão, aos anos de chumbo, às torturas, à campanha das diretas e tudo o que veio depois.

Nesta manhã de segunda-feira, consolidei duas convicções sobre a influência do rádio em minha vida. A primeira foi de que o rádio me fez conhecer melhor o mundo do século 20, com tudo que esse período da história tem de complexo, violento, grandioso e contraditório.

A segunda certeza foi de que o rádio me ensinou a gostar de música. A princípio, da música popular brasileira dos anos 1940 e 1950, que tinha alguns cantores e compositores muito populares e realmente talentosos. Os mais velhos se lembrarão de cantores que o rádio consagrou, como Francisco Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Vicente Celestino e tantos outros. Ou dos compositores que se tornaram amados em todo o Brasil, como Lupicínio, Lamartine Babo, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Noel, e dezenas de outros que não poderia citar neste espaço.

O mais curioso e precioso para mim, no entanto, foi a descoberta da música clássica (ou erudita) que o rádio me proporcionou. Naqueles tempos, a qualidade do som das rádios AM ainda era relativamente boa. Em ondas curtas era um pouco melhor, porque tinha menos ruídos. Bem depois, veio a FM, com qualidade bem superior.

Nos anos 1950, eu ouvia o programa Música dos Séculos, diariamente, às 10 horas da noite, pela antiga Rádio Excelsior. No interior do Brasil, descobria e sintonizava emissoras que tinham programação de música clássica, como era o caso da Rádio Jornal do Brasil, a Rádio MEC e outras. A Eldorado-AM em 700 kHz apresentava duas horas de música de concerto por dia: ao meio-dia e às 8 da noite. E nos últimos 42 anos, a excelente contribuição da Rádio Cultura FM, para a divulgação da música erudita.ccccccccccMesmo hoje o rádio me proporciona momentos de muito prazer e paz. Imagine, leitor, que comecei o dia ouvindo rádio, nesta segunda-feira, bem cedo, enquanto escrevia.

Ouvindo rádio pelo computador, o rádio sobre IP, via internet, pelo iTunes, da Apple, que apresenta nada menos que 250 emissoras de música clássica, entre milhares de outras rádios na web.

Com esse novo rádio IP, estou redescobrindo a música clássica. Dou dois exemplos do que ouvi nesta segunda-feira por volta das 6 horas da manhã. Ia começar a escrever no computador, quando resolvi sintonizar a primeira emissora de rádio-web, a Classical Music Broadcast (CMB) (http://www.classicalmusicbroadcast.com/). Naquele momento, a emissora tocava a linda Chaconne, de Johann Sebastian Bach, numa versão para violino e piano, tocada pelo violinista Andreas Staier, acompanhado pelo pianista Daniel Sepec. Nunca havia ouvido esse arranjo (maravilhoso), para os dois instrumentos. Fui ao site da CMB e vi a notícia de que James Levine, o diretor do Metropolitan Opera de Nova York, não poderá participar da temporada deste ano do famoso teatro porque sofreu uma queda e fraturou uma vértebra, enquanto estava em férias em Vermont.

Outra emissora de rádio IP que ouvi esta manhã foi a Abacus.FM Mozart Piano, exatamente no momento em que Daniel Barenboin começa a tocar o adágio da Sonata em Fá KV280–289e. Comecei a semana com outra disposição depois de ouvir essas duas peças.
O que quero dizer, em síntese, é que devo muita coisa ao rádio, meus amigos, seja em informação ou conhecimento do mundo, seja em prazer estético pela música que ele difunde, até via internet. Além de agradecer a milhares de pessoas que tornaram possível esse privilégio, gostaria de relembrar aqui algumas figuras muito especiais de inventores e pioneiros – como o Padre Landell de Moura, Guglielmo Marconi e Roquette-Pinto – entre tantos outros que tornaram o rádio essa realidade de nossos tempos.

ethevaldo.com.br | 19/09/2011

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