TV para o homem do campo

selo-midia-de-valor-morgadoDurante o curso que ministrei no Instituto de Estudos de Televisão sobre o mercado brasileiro de TV por assinatura, analisamos muitos formatos. Entre os vários exemplos importados, há um que foi desenvolvido no Brasil e, apesar de alguns não darem a devida atenção a ele, já vai completar vinte anos no ar. Falo do grupo de canais voltados ao público rural.

Os brasileiros lideram diversos setores do agronegócio mundial, que parece manter sua marcha de crescimento independente de como esteja o restante da economia. A televisão, como reflexo da sociedade, deve representar esse setor à altura, afinal, ele responde por quase ¼ do produto interno bruto nacional.

Globo rural, lançado em 6/1/1980, é um excelente exemplo de programa dedicado a esse nicho. Fabricantes de insumos e implementos já anunciavam na Rede Globo em horários de grande audiência, como novelas e programas de variedades. Eles sabiam, porém, que suas mensagens ganhariam outra força se viessem no intervalo de uma atração dirigida especificamente ao produtor e ao trabalhador do campo. Daí a criação dessa revista eletrônica semanal segmentada, que deu nova vida para um horário até então pouco importante: o domingo de manhã. Em 1985, o Globo rural ganhou uma versão impressa e, em 2000, edições diárias na TV.

Outros programas cobriram, e ainda cobrem, o agronegócio, especialmente nas estações locais pelo interior do Brasil, mas só em 1995 foi surgir uma emissora exclusivamente dedicada a esse tema: o Canal do Boi. Em seu site, apresenta-se como o “primeiro canal de TV voltado para leilões de pecuária no mundo”. A partir dele, formou-se o Sistema Brasileiro do Agronegócio (SBA), que inclui também Agro Canal, Novo Canal e Conexão BR.

Em 1996, a RBS e a Globosat se uniram para lançarem o Canal Rural. O grupo gaúcho logo ficou com o controle total da emissora, que foi vendida em 2013 para a J&F Investimentos, controladora do Grupo JBS, líder mundial no processamento de carne de boi, cordeiro e aves.

Uma curiosidade: também em 1996, surgiu outro Canal Rural, na Argentina, mas sem vínculo com empresários brasileiros.

Nove anos depois, foi a vez do Grupo Bandeirantes, junto com outros sócios, lançar o Terra Viva. A família Saad, proprietária da Band, tem grande atuação na agropecuária e quis posicionar esse veículo como uma tribuna para defesa dos interesses dos produtores brasileiros. Conforme o slogan anuncia, trata-se do “canal de quem planta e cria”.

Há ainda o Agrobrasil TV, que passou a alugar também alguns horários nos canais que transmitiam a antiga MTV Brasil.

Em todos eles, a grade de programação é semelhante, baseada em cinco gêneros: leilões, televendas de insumos e implementos, telejornais, programas técnicos e culturais. Como se pode imaginar, o grosso do faturamento vem por meio dos dois primeiros. Pela televisão, donos de fazenda podem comprar animais e equipamentos, movimentando milhões de reais anualmente.

Outro ponto em comum entre esses canais está na distribuição. Além da presença nas maiores operadoras do país, especialmente de DTH, elas também chegam através das parabólicas, cobrindo distâncias que muitas redes abertas e operadoras de TV por assinatura (especialmente as de cabo) não alcançam. De acordo com a Pesquisa brasileira de mídia 2014, produzida pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), 37% dos lares brasileiros tem essas antenas instaladas. Ainda segundo essa mesma pesquisa:

Enquanto esta [TV paga] está presente nos grandes centros urbanos e é acessível aos estratos mais ricos e escolarizados, a antena parabólica é mais comum no interior do país: sua posse é declarada por 65% dos entrevistados residentes em municípios com até 20 mil habitantes, contra 17% nos municípios com mais de 500 mil habitantes.

O desenvolvimento contínuo do setor agropecuário deve servir de exemplo para as TVs dedicadas a esse mercado, que ainda tem muito espaço para crescer. Só a qualidade poderá dar a esses canais a admiração e o reconhecimento que o agricultor brasileiro já conquistou dentro e fora do seu país.

Categorias: Tags: , ,

Por Fernando Morgado

Fernando Morgado é palestrante, consultor, professor da FACHA e professor convidado de instituições como Universidad Autónoma Metropolitana do México, ESPM e PUC-Rio. Autor do livro biográfico "Silvio Santos: a trajetória do mito" (Matrix, 2017). Tem outros seis livros como autor, coautor e colaborador. Mestrando em Gestão da Economia Criativa, pós-graduado em Gestão Empresarial e Marketing e graduado em Design com Habilitação em Comunicação Visual e Ênfase em Marketing pela ESPM. Entre suas atividades comunitárias, é articulista voluntário no site do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *