Um certo vozeirão chamado Cyro Barreto

A ideia surgiu de uma brincadeira entre amigos na semana passada. Foi sugerida ao Caros Ouvintes, o Conselho Editorial do site aprovou e aqui está a primeira matéria com o perfil de Cyro Barreto, um dos vozeirões clássicos do nosso rádio. Com esta série além de relembrar e homenagear personagens ilustres do rádio catarinense e brasileiro estamos ganhando novas matérias de atuais e novos colaboradores. Ao apresentar Cyro Barreto, renovo o agradecimento pelas sugestões que estamos recebendo e relembro o apelo de que só com a colaboração dos companheiros é que poderemos fazer justiça a muitos profissionais que ajudaram a construir a radiodifusão catarinense e ainda não receberam o reconhecimento público que merecem. Escreva, colabore com suas informações, faça sugestões e críticas para aprimorarmos ainda mais este trabalho. Aqui está o endereço: [email protected]

Meu caro Antunes Severo: No aconchego de minha biblioteca, eis que dias atrás, deparei-me com uma série de papéis reveladores de um passado que fez parte de minha história de vida e de tantos outros colegas, muitos deles já falecidos, mas que se destacaram nos primórdios do rádio, jornal e TV em SC e no país, a partir da década de cinquenta.

Entre estes documentos estava a Instrução nº 08/53 baixada por José Mauro de Mattos, como Diretor Artístico da Rádio Anita Garibaldi ao organizar o horário de trabalho diário em 1953 dos primeiros locutores a laborar regularmente naquela emissora, a maioria composta por amadores. Ressalte-se que ele era Professor de Francês do Instituto Estadual de Educação e já atuara como rádio difusor no Nordeste brasileiro. Coube ao mesmo selecionar um grupo de catarinenses cujo potencial de locução e talento pessoal mostraram-se, nos anos posteriores, bastante exitosos.

As exceções estavam nas figuras do Diretor Geral, Hélio K. Silva, também fundador da Rádio Guarujá e de Osvaldo Robin Fatuche, de tradicional família paranaense, que notabilizou-se como locutor de noticiários e programas de auditório da Rádio Tupi do Rio de Janeiro e, posteriormente, aqui em Fpolis.

A Rádio Anita, como se sabe, desde 1952 funcionava em caráter experimental nos porões do consultório do médico, advogado e jornalista J.J.Barreto (proprietário da empresa) localizada a rua Arcipreste Paiva nº 5, dando fundos para a rua Trajano (o prédio era de propriedade da família do Des. Ferreira Bastos, ao lado do então Palácio das Secretarias e que, após demolido, deu lugar a um moderno edifício garagem defronte a Catedral Metropolitana).

O transmissor de pequena potência que não obtivera licença de funcionamento no Município de Santo Amaro da Imperatriz, foi, então, cedido pelo primo Alírio Barreto Bossle que veio a ser fundador dos Sindicatos dos Radialistas e Jornalistas de Santa Catarina, bem como da Casa do Jornalista e do Diário Catarinense vinculado aos Diários Associados, no Estado. Na supervisão técnica funcionaram Walter Lang Jr. E Leon Schmiglow.

Parte 2

O Cyro, sempre caprichoso no seu trabalho, além do que escreveu preliminarmente, continuou sua pesquisa revendo documentos, checando datas e informações e já comunicou: tem coisa a ser atualizada no texto enviado ao Caros Ouvintes. De antemão, caro leitor, vale dizer que os ajustes são de pequenos detalhes que não comprometem o valor histórico do relato. Por isso, resolvemos publicar o texto como originalmente veio, pois em breve lançaremos a nova versão do site que passa a ter estrutura de portal e então todo o acervo do Caros Ouvintes será atualizado. Enquanto isso, renovamos o agradecimento pelas sugestões que temos recebido e o apelo para que nos ajudem nessa tarefa de divulgar a contribuição deixada pelos pioneiros do nosso rádio.

Voltando a nominata da Instrução nº 08/53 : Hugo Coelho trabalhava na Previdência Social; Cyro Barreto com apenas 15 anos de idade dedicou-se aos jornais falados e programas românticos. Atuou, também, no rádio paranaense e nas rádios Santa Catarina, Guarujá e nas TVs Cultura, Record, Coligadas e Eldorado. Destacou-se, ainda, no jornalismo impresso e na liderança associativista, sindical e federativa; Eduardo Basadona Dutra trabalhava nos Correios e Telégrafos e seu sucesso foi tão grande que passou a integrar a “troupe” do grande mágico Kar Maia em suas apresentações pelo país; Carlos Ronald Schmidt tornou-se um premiado poeta; Hélio Barreto dos Santos apresentador da Hora do Ângelus era professor de Latim dada a sua formação religiosa e, mais tarde, um emérito criminalista e professor de Direito Romano na UFSC; Huberto Hubert dirigia as transmissões externas como competente técnico e repórter; Darci Costa funcionário do BESC, um apaixonado crítico da arte cinematográfica e colecionador de clássicos; Reinaldo C. Feldman especializou-se no campo das informações comerciais e econômicas e Alfredo Silva, locutor esportivo e declamador obsessivo ficou conhecido como o “retalhador de almas”. Hoje é professor e Mestre em Direito Público, aposentado.

Pelo que se viu e ouviu todos se profissionalizaram em várias áreas no campo comunicacional.

Mais tarde integraram os quadros da Rádio Anita Garibaldi Aibil Barreto, com 14 anos e que foi precocemente contratado pelo grande acordeonista brasileiro Mário Mascarenhas e sua partner Conchita Mascarenhas para fazer suas apresentações pelo país.

Desligou-se da Rádio Anita para trabalhar em Curitiba e Londrina, no Paraná e nas Rádios Mundial e Tupi do Rio de Janeiro. Na TV Tupi de São Paulo consagrou-se pela transmissão ao vivo do primeiro transplante de coração realizado na América Latina pelo médico Euclides de Jesus Zerbini. Na Rádio Gaúcha, em Porto Alegre conseguiu o feito de realizar a primeira entrevista concedida a um repórter brasileiro pelo eminente poeta Mário Quintana, sempre arredio ao contato com a imprensa.

Outros talentos mourejaram nesta estação que foi a segunda na Capital barriga-verde. A primeira foi a Rádio Guarujá em 1944 e a terceira, a Rádio Diário da Manhã, em 1954.

Neste ano (1954), a Rádio Anita deixou de atuar em caráter experimental por ter obtido licença legal para funcionar em 1.110 quilociclos com o Prefixo ZY-T25. Mudou-se da antiga sede para a rua João Pinto com modernas instalações que permitiam programas de auditório animados pelo regional de Zequinha, o cantor Jaqueta com o grande sucesso musical “Sacode Carola” e que também era Pai de Santo conhecidíssimo; a dupla sertaneja Portãozinho e Porteirinha, Daniel Pinheiro, os pianistas Chevalier e Aldo Gonzaga e tantos outros talentos. Além de programas de calouros diversas atrações nacionais e internacionais também se apresentaram tais como: Cauby Peixoto, Isaurinha Garcia, Ivon Curi, Jamelão, Orquestras Cassino de Sevilha e Suspiro de Espanha, sempre contando com a apresentação do titular Osvaldo Robin.

Ainda pontificaram na emissora valores dedicados ao rádio teatro (novelas), tais como: Maria Iracema de Andrade, Lourdes Silva, Tito Correa, Gilberto Nahas e Nilson Mello. Na locução João Ari dos Santos Dutra, João Décio Machado Pacheco, Atila Rothsal, Joci Pereira, Paulo Martins, Hamilton Alves, Aldo Luiz, Souza Neto, Manoel de Menezes, Souza Miranda, Dantas Ruas e, no campo esportivo, Souza Junior. No colunismo social um outro grande valor se revelou na figura de Rubens Cunha com seu programa “Semanário Elegante do Ar” e, na previsão do tempo, o Prof. Amaro Seixas Neto.

Parte 3

Cyro Barreto *

Anos mais tarde também participaram com seus talentos Salomão Ribas Jr. (que logo em seguida foi para o Rio de Janeiro trabalhar na Rádio Nacional), Walter Souza, Fenelon Damiani, Moacir Pereira, além de Roberto Alves que se destacou na transmissão dos eventos desportivos.cAs transmissões ao vivo não se restringiram apenas aos estádios. Diretamente dos badalados points da vida noturna da época, programas foram realizados com sucesso absoluto. Para lembrar: Sabinos Bar ( na cobertura do Edifício IPASE, na Praça Pereira e Oliveira), Samburá na Praça Quinze de Novembro, Restaurante Rancho da Ilha de Dom Marino e das boites dos hotéis Lux , Oscar Palace e Royal. Menção também, as pesquisas de opinião pública que envolviam personalidades conhecidas do mundo político-econômico e social. Programas de músicas clássicas e populares, de poesias, de notícias e reportagens alcançaram os mais expressivos índices de audiência, superando a concorrência das emissoras locais.

Os programas políticos e as entrevistas estavam a cargo de Hélio Kersten Silva , Tupy e Jaison Barreto, Hélio B. dos Santos, Volney Colaço de Oliveira, Cesar Athaualpa Machado e Osmar Cook, todos “experts” no jornalismo e na política catarinenses.

Um aspecto que não pode ser esquecido na trajetória da Rádio Anita é o lado comercial. Apesar de ser uma emissora de porte pequeno com relativo alcance de suas ondas médias, jamais faltaram patrocinadores para os seus programas. E, é importante frisar que não apenas o comércio local, como empresas nacionais colaboraram para o sucesso da programação. Por exemplo: Lojas Renner, Casas Pernambucanas, TAC- Transporte Aéreo Catarinense, Cruzeiro do Sul, VARIG, Lojas Alfred, Estabelecimentos A Modelar, Organizações Koerich, Loja A Samaritana, Sedutora Calçados, Loja Kotzias, e tantas outras.

“O coração palpita quando se ouve Anita” era um dos slogans da estação assim como o outro em alto e bom som “Uma das emissoras da Organização J.J. Barreto”. Na realidade era somente uma até formar cadeia com a única rádio de Camboriu de propriedade do ex-prefeito Francisco Barreto.

A Rádio Anita Garibaldi serviu de contraponto independente às Rádios Guarujá (PSD) e Diário da Manhã (UDN) defensoras ferrenhas de suas ideologias político-partidárias até 1965, ano em que assumiu a direção o lagunense Nelson Almeida, preposto do Grupo Hoepcke e da Rádio Guarujá.

Os sonhos de J.J. Barreto não se cristalizaram apenas na Rádio Anita, futuro embrião da Rádio e TV Cultura em 1970, mas também, na fundação do Jornal O Tempo, dos Sindicatos dos Radialistas, Jornalistas e na Casa do Jornalista – Associação Catarinense de Imprensa.

Seus ideais de liberdade de expressão e de inclusão social estão expressos na memória de milhares de pessoas de todos os quadrantes de SC e do país que dele receberam quer como comunicador, quer como médico humanitário, o lenitivo necessário à satisfação de uma convivência mais fraterna e saudável.

Na sua pessoa, as crianças de rua e os necessitados sempre encontraram um ombro amigo e um bolso generoso.

Hoje, na serenidade de seus 95 anos, ainda conserva o seu ar maroto e brincalhão, apesar das adversidades do tempo. //

* Cyro Barreto nasceu em Laguna/SC, em 31 de janeiro de 1938. Jovem, radicou-se em Florianópolis onde constituiu família e dedicou-se ao jornalismo, ao Direito e ao Serviço Público. Mestre em Direito pela Universidade de Santa Catarina participou de cursos de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas/RJ e nas universidades de Washington, Harvard e Wisconsin, nos Estados Unidos e no Instituto do Trabalho Livre, no México.

Por mais de quarenta anos exerceu cargos de chefia, assessoria e direção no Poder Público tendo chegado a assessor da Constituinte Estadual de 1989 e à presidência do Colegiado de Procuradores da Assembleia Legislativa, como Procurador Geral.

É um dos fundadores da Casa do Jornalista e em 1971 e 1994 elegeu-se presidente quando transformou a entidade em Associação Catarinense de Imprensa. Posteriormente foi eleito presidente dos Sindicatos dos Radialistas e dos Jornalistas de Santa Catarina. Chegou à vice-presidência e à presidência da Federação Nacional das Associações de Imprensa de 1998 a 2001. Também participou da fundação e atuou na rádio Anita Garibaldi, TV Cultura e jornais O Tempo e Diário Catarinense (Diários Associados) de Florianópolis, e Gazeta de Joinville.

É o único catarinense a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Jornalismo e o primeiro condecorado com a Medalha do Mérito Jornalístico outorgada pela Ordem dos Jornalistas do Brasil.

Foi presidente executivo do VIII e XI Encontro Nacional de Associações de Imprensa, realizados em Florianópolis e Laguna/SC, em 1997 e 2001.

Foi editor na Rede Fronteira Sul de Comunicação para os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Atualmente é presidente do Conselho Superior da Associação Catarinense de Imprensa.

É autor da História da Associação Catarinense de Imprensa/Casa do Jornalista editada em 2009 pela ACI e Insular.

3 respostas
  1. jose predebon says:

    Amigos, esse texto termina mesmo nessa frase: “Na supervisão técnica funcionaram Walter Lang Jr. E Leon Schmiglow.” – Ou tem uma página a mais que eu não consegui acessar? Abk JP

  2. Antunes Severo says:

    Caro Predeba, gratíssimo pelo toque: essa é a primeira parte de uma série de matérias sobre a história da instalação da rádio Anita Garibaldi escrita pelo Cyro Barreto que fez parte da primeira equipe de locutores e onde ele se revelou como um dos vozeirões do rádio. Abraço fraterno.

  3. Fabiano Barreto says:

    Gostaria de agradecer em nome de toda nossa familia por esta belissima homenagem as origens de nossa historia que esta diretamente ligada a propria historia da imprensa e radio catarinenses. Muito obrigado. Fabiano Barreto.

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