Um doce pesadelo

Pesadelo doce? indagará o caro leitor. É isso mesmo, pois, como verá, não se trata de um pesadelo horrível, como é da natureza desses sonhos maus.

Rio_de_Janeiro

Tenho esse pesadelo recorrentemente. É assim. Sonho que estou vagando num barquinho, pequenino e frágil, uma “casca de noz”. Navego na Baía de Guanabara. Vejo ao longe a maravilhosa, a inigualável orla do Rio, com suas praias beijadas por um mar verde e apaixonadamente carinhoso no contato com as areias brancas, ainda iluminadas pelo sol da tarde que morre.

Vejo a ponte Rio-Niterói, os fortes, esses austeros guardiães de pedra – que hoje guardam a memória de tempos heróicos do passado; vejo o Centro do Rio, belo em construções antigas e exuberante na modernidade dos arranha-céus novos, com suas faces inteiras de vidro onde se desenha a poesia cor de ouro da luz do sol refletida.

Olho o Pão-de-Açúcar e o Corcovado com olhos deslumbrados, como se fosse um turista de primeira viagem; a Ilha do Governador, ao longe; a Ilha Fiscal e o cais do porto, mais perto.

Vejo, do outro lado, Niterói, a cidade-sorriso, sorrindo hospitaleira em face da sua vizinha carioca; vejo as barcas que as ligam, hoje não tão lentas, mas ainda românticas para quem sabe usar seus olhos também com o colírio da memória; vejo barcos de pesca e de regatas, minúsculos na imensidão dessa baía abençoada.

Estou eu, pacificado, balouçando em águas tranquilas quando, “de repente, não mais que de repente” – como disse Vinícius, esse magistral menestrel das belezas do Rio e de sua garota – vejo aproximar-se um navio.

Não se trata de um navio pequeno ou médio. Não. É um daqueles navios imensos, que parecem um hotel bem grande ou quase uma cidade em miniatura, com suas inimagináveis mordomias para oferecer a abonados passageiros.

O navio enorme se aproxima. E, na medida em que chega mais perto, cresce mais rápido de tamanho do que se fosse um navio de vida real, como aliás sempre acontece nos sonhos, e nos pesadelos.

Para complicar, a luz do fim da tarde foge mais depressa, como se também se intimidasse diante desse imenso atravessador de oceanos.
E lá estou eu, no lusco-fusco, com as sombras caindo rapidamente. Já não tão tranquilo, assalta-me uma consciência de sonho, mas tão lúcida quanto a da realidade. Penso, então, na possibilidade, bem concreta no sonho, de que essa imensa montanha navegante de aço possa simplesmente atropelar meu frágil barquinho.

Tento, então, ligar o motor. Puxo, puxo, que puxo aquela clássica cordinha dos pequenos motores de popa, sem que o motor pegue. Aí, vejo que… não há motor!

Mais preocupado, imagino que, à força de remos, poderei me afastar o suficiente da trajetória do grandalhão. Procuro os remos e… não tenho remos!

Então, com uma calma talvez só existente nos sonhos, ou em pesadelos, deixo-me ficar, entregue à sorte. Respiro fundo a brisa do mar; sinto, forte, o cheiro de maresia. Olho o restinho de luz insistente por detrás dos morros. Ouço o grasnar dos pássaros marinhos. Delicio-me com a beleza do Rio. Agradeço por ser carioca.

Já certo do choque e do mergulho no para-sempre de águas profundas, vejo uma sombra que cresce, cresce, cresce…

Fecho os olhos e, ao reabri-los, surpresa: a massa escura do imenso transatlântico se transformou na sombra acolhedora das montanhas do meu Rio. O ruído dos motores virou o som de carros e de vozes nas ruas. O aço do navio virou flores de jardins da praça, formando um caleidoscópio de todas as cores possíveis, que emitem perfumes como os que sinto quando vou à Floresta da Tijuca ou passeio nas alamedas encantadas do Jardim Botânico.

Tranquilíssimo, agora, vejo-me deitado pronto para dormir. E, ao me cobrir, vejo que o cobertor é feito do céu escuro do Rio de Janeiro, e bordado com as mais lindas estrelas que podem existir.

 

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