Um domingo de chuva e cinema

Fazia um bom tempo que não ia ao cinema, até que uma amiga comentou sobre um filme que estava recebendo boas críticas, e inclusive iria concorrer ao Oscar.

chuva

Resolvemos convidar os demais amigos do bairro pra ir, nem todos se empolgaram com o convite, na verdade nos disseram pra chamá-los quando fossemos assistir a Deadpool. No fim das contas nos juntamos em cinco pra ir assistir ‘Brooklyn’. O problema é que nesse domingo, em particular estava chovendo, então já viu, começaram as desistências. Acabou que fomos somente em três, eu, Gabriela e Daniel, ou seja, os mais cinéfilos mesmo. A chuva estava moderada, mas pra ser sincero, mesmo que estivesse caindo trovoadas ainda sim iríamos. E lá estávamos nós três dividindo o mesmo guarda-chuva da Gabriela, a mais inteligente e que não se esqueceu de levar.

Quando estávamos no ponto de ônibus a chuva e a ventania foram aumentando, começamos a nos entreolhar, meio que pensando em desistir e cada um retornar para sua casa. Não desistimos, ficamos rindo da situação e reclamando sobre como os latões demoravam aos domingos. Em certo momento o Daniel soltou: – Espero que esse filme seja bom.

Todos rimos, estava demorando para que um de nós soltasse a frase, mas o melhor veio com a resposta da Gabriela: – Vai querer ficar em casa assistindo ao Faustão?

Pronto, ela havia dado seu tiro certeiro, pra essa pergunta realmente não tinha como argumentar. Rimos mais ainda, um riso meio que trêmulo, afinal a ventania estava forte e as orelhas já estavam congelando, pelo menos as minhas. E enquanto esperávamos o ônibus, recordávamos outras de nossas idas ao cinema, acho que isso deve ser coisa de todo mundo que está na faixa dos vinte, viver recordando histórias antigas com os amigos de infância, aliás quando paro pra pensar sobre isso, é incrível como estamos nos tornando cada vez mais saudosistas, e o pior é que não sei se isso é algo bom ou ruim para nossa amizade.

Lembrei para eles da vez em que a Gabriela, lá pelos seus 10 anos de idade, chegou com unhas grandes, ela estava feliz que havia ganhado da sua mãe. Toda exibida, se sentindo um mulherão, e eu mais novo que ela, achava que nossa amiga esqueceria da gente por sermos pirralhos demais, até hoje me lembro de sentir meio que um nó no coração. E o pior que nunca havia contado essa história, mas ali no ponto de ônibus, no meio de uma intensa chuva, revelei aquele momento de nossa infância.

O Daniel riu, disse que nem se lembrava dessa história. A Gabriela meio que deu um sorriso sem revelar os dentes, e confirmou que recordava daquilo como se tivesse ocorrido ontem, mas que jamais imaginava como eu havia me sentido com algo tão bobo. Então ela abriu seu sorrisão e disse que jamais teria nos trocado por outros amigos, só porque éramos mais novos que ela. O Daniel sugeriu um abraço coletivo e lá fomos todos nós rindo se abraçar. Foi então que o ônibus finalmente chegou.

Já no terminal, foi mais uma longa espera por outro latão, a diferença é que dessa vez não apanhamos tanto vento e chuva. Durante um tempo permanecemos em silêncio, e pra ser sincero isso não me incomodou, só a presença deles já bastava, é estranho dizer isso, mas é uma verdade, às vezes somente estar próximo dos amigos, sem nem estar trocando ideia, já é algo reconfortante. É algo que realmente faz bem para alma.

Quando finalmente chegamos no shopping, decidimos comprar primeiramente os bilhetes antes de comermos na praça de alimentação. Algo que sempre fizemos, não adianta, acho que somos os seres mais rotineiros desse mundo. Por um momento pensamos em assistir a Deadpool, mas o Daniel disse que não seria certo, isso seria como dar uma facada nas costas de nossos demais amigos, não poderíamos fazer tal traição.

Tínhamos que assistir ao blockbuster só quando todo mundo tivesse reunido. No fim, acabamos concordando com ele, acho que se fizéssemos aquilo, teríamos um longo remorso, e acabou que Deadpool ficou para outro dia. Não adiantava, o negócio era assistir a Brookyn mesmo, ainda que parecia ser um filme meio água com açúcar, e só a Gabriela que estava super empolgada pra ver.

Após comprarmos os bilhetes, descemos as escadas e nos dirigimos pra praça de alimentação, sentamos por ali e comemos pizza. Ficamos jogando conversa fora até que chegasse a hora do filme começar, e quando deu o horário, fomos até o cinema. Não tinha muita gente na sala, vai ver que era por causa da chuvarada que deu naquele dia e todos resolveram ficar em casa. Nos dirigimos até nossos lugares, bem no final da sala, não sei porque, mas sempre preferimos sentar atrás, talvez por achar que o distanciamento de uma sensação melhor de assistir ao filme.

Brooklyn começou, e poucos minutos de filme já bastaram para minha suposição negativa e também a de Daniel sobre a película ser diluída. O tempo passou rápido graças a qualidade de Brooklyn. E quando saímos da sala do cinema, não conseguimos esconder nossas expressões de alguém que acabara de descobrir um tesouro no fundo do mar. Uma história simples, mas que quando você para pra refletir há inúmeros assuntos a serem explorados. Mas certamente o mais impactante, e que converse tão bem com os jovens, é sobre certo momento de sua vida em que tenha de tomar uma decisão capaz de mudar todo o seu futuro.

Questões sobre o medo de se arriscar, sobre como lidamos com os olhares e julgamentos alheios, a importância de você mesmo guiar sua vida. Enfim, há muitas coisas a serem discutidas com os amigos num bar. E algo bom desse filme é que ele adota a contramão da autoajuda, na verdade ele é sincero, principalmente na medida em que ele deixa possibilidades em aberto, isso é a vida real, nunca sabemos ao certo se tomamos o caminho correto de nossas vidas, o máximo que podemos fazer é imaginarmos o que poderia acontecer se tal caminho fosse tomado.

Ao final de nossa noite, saímos vagarosamente do shopping, a passos curtos até o ponto de ônibus. A chuva já tinha ido embora, agora o cuidado era em não pisar nas poças de água formadas no chão. Junto com um caminhar lento, um silêncio doce nos acompanhou, formado por certa tristeza e felicidade, tristeza por aquele dia ter terminado e felicidade por não termos deixado uma chuva nos trancafiar em casa.

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