Um homem e a cidade dos riosulenses

Dia1104201320/10/1962 – Jantar pela inauguração de uma linha comercial aérea para Rio do Sul pela TAC/CRUZEIRO. As pessoas a começar pela ponta da mesa do fundo: 3º Ruy Olympio de Oliveira (Promotor); 7º João Cavilha; 8º Osni José Gonçalves; 9º Fermino Dearchi (gerente do Banco do Brasil); 10º Donato Ramos; 11º Cândido Rodrigues; 12º (outra ponta) Claudina Rodrigues; (continuando o outro lado) 13º Jucy Fiuza (Cysama) Lima; 14º Moacir Santos; 15º Vitor Pellizzetti; 16º João Prudência (Guinha) Garcia – Agente local da TAC Cruzeiro; 17º Raymundo Mayr Sobrinho.

Foi há muitos anos. A cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina, ainda estava de calças curtas e se criança de verdade fosse, ainda seria o tempo das caçadas com estilingue.

A cidade, se criança fosse nessa época, pelas poucas esquinas que em si existissem, jogaria bolinha de gude. Nessa época em que ele aqui chegou, há muito tempo, esta era uma cidade que começava a aprender a andar.

A cidade, se criança de verdade fosse, ainda brincaria nas poças d’água, tomando chuvisco fino, molhando os pés descalços nas correntezas deslizantes, pelas ruas desprovidas de pedras ajuntadas, de sarjetas e calçadas.

A cidade era criança suja, borrada, raquítica, pobre mesmo, sem vestimentas e o frio dos seus poucos anos somente era aquecido pelo ardor de crescer, daquela vontade de florir, qualidade que, desde criança, a gente nota em cidade-menina.

Foi nessa época que ele aqui chegou. E seguiu com a cidade. À cada acontecimento ele estava à frente, organizando, planejando, acalentando a cidade-menina em seus braços magros, cantando cantigas de ninar, com sua voz moça, valente, cheia de vida, sonhadora como aquela cidade-menina.

A cidade cresceu com ele; ele viu a cidade crescer. Ajudou em tudo, colaborou em todas as grandes e pequenas obras, lutou por ela, viveu por ela, fez tudo por ela e esqueceu-se de que quando a gente dá aos outros acaba esquecendo-se de si próprio.

Mas mesmo assim, ele era feliz!

A cidade-menina foi tomando juízo, foi pegando formas, foi enriquecendo, conhecendo novas ruas e aterros… e avenidas… melhoramentos… calçado novo, como em dia de festa… e ele via, embevecido, a cidade-menina tornar-se moça e sorriu feliz.

Havia dado tudo de si. As noites indormidas sobre u’a máquina de escrever era a sua luta. As madrugadas foram amontoando-se ao longo do corredor da sua vida e foram tantas que ele acabou se acostumando a não ter noites dele mesmo.

A cidade-menina tornou-se cidade-moça e cidade-mulher e, como toda mulher, era coquete, esquecida, cheia de formas e gostos.

Um dia ele notou que a cidade-coquete tinha gostos às vezes exagerados. Ainda tinha forças para lutar. E lutou! Defendeu a sua honra de cidade-moça através da sua vida jornalística e tornaria a defendê-la fosse como fosse, desanuviando idéias e ações que em torno dela girassem e que não ficariam bem numa cidade-mulher da sua qualidade.

A cidade não notou que o velho jornalista agora com os cabelos fugindo um a um, os olhos cansados das noites e madrugadas misturados com os tipos da máquina, estava falando:

– Toma cuidado, menina (ele sempre a teria como menina… Todo pai, tutor ou amigo não acha que um dia os outros crescem!) – tome cuidado com o que quiserem fazer com você!

E falou. E gritou. Mas a cidade que já foi, há tempos, cidade-menina, não escutava mais.

E a sua voz não foi ouvida. Também, já era rouca pelos anos vividos. Os anos já se foram em tantas esquinas novas… O velho jornalista tinha os olhos cansados, os dedos dormentes… a alma alquebrada pelas incompreensões… Fechou a máquina de escrever.

Ah! A dor de vê-la fechada…! Os papéis amarelecidos de sua estante velha foram encaixotados, cuidadosamente, como quem cheira uma flor de cor suave. Os velhos móveis… as famílias surgidas da sua família e que já haviam partido… tudo eram recordações, apenas. Apenas faltava partir também; E partiu. A cidade nem viu! Não quer dizer que ela o havia esquecido. Não! Os bons amigos a gente nunca esquece. Talvez, um dia, a cidade, agora não mais cidade-menina, olhará em torno de si, à procura de amparo moral e perguntará a todo mundo:

– Você não viu o Jucy…? Jucy Fiúza Lima… Ele sumiu da minha frente…

(E vai procurar naqueles cantinhos do passado, nas esquinas descalças, na sacola de criança sapeca que brincava de bolinha de vidro… Vai perguntar para as pessoas importantes e antigas… o Fornerolli, o Soldateli, pro Haertel, pro Osny Gonçalves, no Clube Caça e Pesca, no Concórdia, vai procurar o Meu Cantinho, no Lindomar, vai perguntar pro Hirt, pro Schroeder, na Câmara de Vereadores, no Jornal do Cunha – o Nova Fase; ao Hübsh, ao Nardelli, na Minister, nas rádios Difusora e Mirador, na casa dos Roussenq, do Siebert, do Danilo Schmidt, no Pamplona, Soar, Theiss, Larsen, Medeiros, Dellagiustina, Demarchi, Gaertner… e tantos outros que o conheceram em Rio do Sul. Vai se cansar).

Não vai encontrar nada a não ser a poeira do tempo brincando de esconder nas biroscas que não mais existem pois o calçamento engoliu. E, talvez, chore de saudade pela partida do seu amigo. E, sentada na velha esquina das bolinhas de gude (quando menina ali se sentava) e o Jucy não vai aparecer. Talvez, um dia, a cidade venha  convidá-lo para uma visita mais demorada, tomar a sua mão e dizer:

– Jucy Fiúza Lima… no dia do seu aniversário eu o procurei mas não o encontrei por aí. Você havia se mudado. Mas hoje eu o quero aqui, sentado ao lado dos outros seus amigos, para receber a homenagem que você merece. Sente-se aqui. Receba o seu prêmio. A rua das bolinhas de gude será a nossa homenagem ao velho jornalista que comigo viveu durante tantos anos, como amigo, como incentivador… Jucy, sente-se aqui, ao nosso lado. E receba o abraço de agradecimento pelo muito que fez. Você não foi pessoa anônima na nossa vida. Na vida de Rio do Sul, foi um dos melhores amigos. E, se hoje sou o que sou, no concerto das demais cidades catarinenses, se hoje eu, cidade de Rio do Sul, sou o que sou, também devo a você.

E, aí, será a vez do Jucy chorar.

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