Um passado pouco distante

Caro Aldírio Simões: passei a tarde inteira deste dia 29 de janeiro de 2002, lendo dezenas das tuas crônicas deliciosas, proporcionadas pelo site que A Notícia disponibiliza na internet. Que delícia!
Por Emanuel Gomes de Mattos, em fevereiro de 2002
Carta publicada na Coluna “Falé Mané”, do Jornal AN Capital, sob a responsabilidade do jornalista Aldírio SimõesGraças a isso, pude viajar no meu passado, no tempo em que nem me conhecia por gente e fui parar em Florianópolis, levado pelas mãos de meu pai, o então misto de radialista/jornalista José Mauro Gomes de Mattos.

Lembro vagamente- afinal tinha quatro ou cinco anos- que meu pai comandava um programa, era meados dos anos 50- na Rádio Anita Garibaldi, daqueles que se chamava, à época de palco- auditório. Em uma das vezes, o Cauby Peixoto, no auge da fama, levou quase duas horas para se deslocar do hotel até à rádio, tamanho o assédio feminino, onde se apresentou. Eu mesmo,  uma vez subi em um banquinho e cantei uma canção- lembro até hoje: ‘Sabiá na gaiola, fez um buraquinho’.  Meus dois irmãos, Ariel e Ícaro, também cantaram comigo.

Meu pai havia participado  da campanha eleitoral que levou Jorge Lacerda ao governo, ao lado de uma radialista de nome Lourdes- que pouco tempo depois provocou a separação de papai com a minha mãe, Elony, que nos colocou em um ônibus daqueles bicudos e nos arrastou para Porto Alegre.

Pouco tempo depois, internado em um colégio gaúcho, soube que papai havia sofrido derrame cerebral. Viajamos em um avião de pará-quedistas para Florianópolis- cortesia da aeronáutica, pois José Mauro havia dado baixa como sargento das comunicações poucos anos antes.
Ao chegarmos para o enterro, soubemos que papai havia sido removido para o Rio de Janeiro, onde morreu na mesa de cirurgia e lá foi enterrado.

Das lembranças que me restam, a última visão de José Mauro sentado na escadaria da rádio enquanto embarcávamos no ônibus que nos separou para sempre. E, em abril de 58, quando voltamos a Florianópolis, minha mãe  abraçada a Lourdes, ambas chorando a morte daquele a quem ambas amaram.

(…)

Antes de falecer, em abril  de 99, minha mãe, dona Elony, me passou um recorte do jornal “A Verdade”, onde um deputado da época- acho que se chamava Elias Adaime, algo parecido, pois não tenho o recorte aqui- respondia à acusação , feita por Manoel de Menezes, de que meu pai teria sido enterrado no Rio como indigente, abandonado pelos amigos a quem havia ajudado a eleger, inclusive. Tudo isso em 1958, exatamente quando o governador Jorge Lacerda também morreu, em acidente aéreo.

Tudo isso estava na parede da memória e aflorou quando li uma série dos teus artigos, cheio de referências ao passado, como o intitulado “Lembranças do Rádio”, de 25 de outubro, que me levou a escrever-te esse e-mail.

Hoje tenho 50 anos, sou jornalista e até estive durante nove meses em Florianópolis, entre novembro de 85 a agosto de 86, na equipe que lançou o Diário Catarinense. Na época, trombei com umas malas da direção e fui embora. Só lamento ter perdido a chance de viver o resto de meus dias nessa terra que amo e ter resgatado a breve, porém certamente movimentada passagem de José Mauro por Florianópolis.

(…) Um grande abraço desse gaúcho que nunca esquece essa ilha da magia que iluminou um pedaço muito importante da minha infância.


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