Um rei do carnaval

selo-comportamentoO Carnaval sempre foi uma festa tipicamente de rua, eminentemente popular!As ruas de Nice, Veneza e Nova Orléans são testemunhas desse “reinado” que extingue, temporariamente, os protocolos sociais e com isso aproxima as pessoas.Foi no Brasil, no entanto, que Momo estabeleceu seu trono. Fosse em corsos, bandas, cordões ou qualquer outra manifestação, com ou sem máscaras, era nas ruas que ele encontrava sua maior expressão, em músicas e danças. Era comum ver janelas se abrirem para saudar foliões; e não era raro vê-las, logo em seguida, serem fechadas, para que os moradores também se juntassem à brincadeira.
As fantasias iam da perfeição, que fazia sonhar, ao grotesco, que fazia rir. A festa de Momo, apesar de sua origem profana, era cheia de inocência e congraçamento.Arte popular sem compromisso, às vezes maliciosa, mas sempre contagiante.O tempo se encarregou de desvirtuá-la, tirar-lhe a pureza nativa e brejeira. A violência urbana a tirou de muitas ruas. O turismo “para inglês ver” a confinou em sambódromos. Mesmo os bailes de salão deixaram de ser locais de encontro de famílias e flertes discretos e ingênuos, para se transformarem em palco de licenciosidade, sensualidade vulgar, enfim, num ringue de “vale-tudo”. Para piorar, as fantasias que eram queimadas na Quarta-Feira de Cinzas, hoje extrapolam esse tempo de folia. Hoje, as “tribos” incorporaram suas indumentárias grotescas ao cotidiano: trogloditas, andróginos, zumbis… O ridículo virou moda, tomou as ruas e se leva a sério!Por que nosso Carnaval se perdeu?Parece que só o Norte e o Nordeste mantiveram e, até, expandiram essa tradição de cantar e dançar nas ruas.As escolas de samba não fazem mais sambas memoráveis, só coisas híbridas, descartáveis ou recicladas. A espontaneidade deu lugar à frieza da linha de montagem! A inspiração deu lugar ao “merchandising”… Mas, mesmo nesse horizonte de desencanto, ainda era possível encontrar uma pérola.Eu não ia aos bailes de salão, pois a grana era curta; mas curtia ir aos bailes de rua, com o encargo adicional de tutelar minhas irmãs, então, adolescentes.Lá, gostava de observar as pessoas:Havia casais, grupos, mas também havia os solitários. Solitários, mas inexplicavelmente felizes!Um deles foi especialmente marcante:Desde a primeira vez que o vimos, ele chamou nossa atenção: usava calça branca todos os dias, mas alternava o colete e o chapéu “palheta”, ora prateados, ora dourados. Mestiço, seu rosto era redondo, tinha bigode e cavanhaque finos, jeito nordestino… Ele não cantava, apenas acompanhava o ritmo das músicas: marchinhas, frevos e sambas-enredo; e o fazia andando – como se estivesse numa “marcha atlética” -, a pairar por aquele imenso “salão” urbano. Às vezes surgia com uma latinha de cerveja; de tempos em tempos rodopiava qual um monge sufi. Não incomodava ninguém! Pelo contrário, seu rosto – olhos semicerrados e sorriso aberto – expressava a mais sincera nobreza, alegria e paz de espírito! Sua passagem contagiava as pessoas, que o saudavam e sorriam para ele. Ele era um legítimo “rei” do Carnaval! Um rei solitário… Um rei sem rainha (talvez ela estivesse longe e ele fechasse os olhos para vê-la)… Um Pierrô sem Colombina, mas com a alma transbordante de confete e serpentina!Ele ficou como um símbolo derradeiro de um Carnaval que se perdeu no tempo, de canções que não se canta mais, de tradições que mereciam ser mantidas, mas que o “mercado” descartou… Mas isso não é o fim, pois já na década de 1960, Vinícius e Carlinhos Lyra lamentavam: “Acabou nosso Carnaval! Ninguém houve cantar canções…”, para, depois, exortarem:“E, no entanto, é preciso cantar! Mais que nunca é preciso cantar! É preciso cantar e alegrar a cidade!”.Cantemos e dancemos, pois!Quem sabe a alegria volte às ruas e delas nunca mais se ausente. Quem sabe o reinado do povo: a democracia, finalmente, se consume em todos os dias do ano!
Adilson Luiz GonçalvesEleito para a Academia Santista de LetrasMestre em EducaçãoEscritor, Engenheiro, Professor Universitário e CompositorOuça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento)Caso queira receber gratuitamente os livros digitais: Sobre Almas e Pilhas, Dest’Arte e Claras Visões, basta solicitar pelos e-mails: [email protected] e [email protected]ça as músicas do autor em: br.youtube.com/adilson59(13) 97723538Santos – SPCaso não queira receber este tipo de mensagem, basta solicitar, que seu e-mail será removido da lista.Doe sangue e medula óssea!

Categorias: Tags: , ,

Por Silvio Loddi

Iniciou em rádio como operador de áudio, locutor comercial apresentador e animador. Em São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis foi apresentador de rádio e telejornalismo, redator, produtor, chefe de reportagem e direção executiva. É o atual coordenador de produção e apresentador da Rede Acaert de Notícias.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

1 responder
  1. Adriel Batista Correia De Melo says:

    Maceió,08/03/12

    Prezado Adilson.
    Saudações !

    Eu gostaria de saber se a Rádio Espírito Santo já opera com 50Kw,como prometidoaos aos ouvintes.

    73`s

    Adriel Batista Correia De Melo

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *