Um sonho de menino

Em 1996 dei início a um projeto que mexeria com emoções.

capaBuscar lá no passado coisas que deveriam ficar enterradas pode não parecer boa ideia, mas ao mesmo tempo pode trazer respostas, ou ainda, levantar dúvidas. A partir da busca dessas respostas e dúvidas deixamos uma zona de conforto. Entramos num território um tanto arriscado, mas acredito necessário.

Vindo de uma infância conturbada pelo alcoolismo do meu pai e um lar dividido cresci com insegurança e hoje com Transtorno de ansiedade. Sonhava acordado ora com longos diálogos com meu pai. Nesses tinha em minha conversa imaginária tempo de sobra para dizer, expressar, perguntar tudo o que eu queria, e sem contar que o que eu mais queria era a sua presença real. Ali, em minha imaginação, tinha meu pai por inteiro para compartilhar tudo o que me viesse à mente.

Em outros momentos sonhava acordado com alguém a quem eu abraçava. Abraçava ternamente. Aquela pessoa em meus braços padecia de cuidados, de atenção, de amparo. E eu estava ali. Por anos e anos imaginei que se tratava de uma futura namorada. Dessa eu cuidaria, abraçaria, protegeria. Os anos passaram. Nunca idealizei um rosto para a pessoa abraçada.

Casei com minha primeira namorada. Uma bela mulher com um passado difícil, porém bem resolvida, sensível e delicada como cada mulher, mas forte como uma guerreira. Decidida e extrovertida a ponto de uns 20 anos depois eu perceber que ela realmente não tinha nada haver com a pessoa a quem eu abraçava. Não era ela quem precisava daqueles cuidados.

Aquela pessoa abraçada a quem eu imaginava não se tratava de uma futura namorada. Aquela pessoa abraçada carente de cuidados era eu, todo o tempo. Como demorei tanto tempo para perceber isso? Valeu a pena trazer coisas lá do passado. A pessoa a ser abraçada era tão somente eu, que vivia chorando pelos cantos da casa e do quintal. Por fim chegou a hora de escrever meu romance. As emoções da minha família estariam em jogo, sobretudo, a do meu pai, minha mãe e a minha.

Depois de consultar meu pai, já por anos sem beber, resolvi recomeçar todo o livro em que o personagem principal agora seria o filho e não mais o pai, como no primeiro em 1996. Foram cerca de 6 meses trabalhando nessa obra. Publiquei o livro no final de outubro de 2011. Na capa final coloquei alguns comentários que agora me fazem mais sentido:

Um sonho de menino é uma trajetória de luta e de amor, de esperança e perseverança.

Um menino chamado Otávio vê na cura de seu pai seu maior sonho. A possibilidade de vê-lo sóbrio faz com que o pequeno menino sonhe a cada dia com um pai por inteiro.

Otávio descobre que uma pessoa mesmo fisicamente próxima pode mostrar-se distante, alguém ao lado pode ser ausente quando está divido pela doença física ou pela ferida emocional acumulada pelo tempo e reforçada pelo vício.

Sua única certeza era… que jamais desistiria.

(Dedico esse livro a todas as crianças que convivem com pais alcoolistas. Aos alcoolistas em recuperação e aqueles que ainda lutam contra o vício, pois tenho certeza que com seu esforço e apoio da família vencerão).

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