Um velho piano

Lá estava ele, no canto da loja de antiguidades. Um velho piano. Não um piano antigo e monumental como os pianos clássicos, mas um piano de armário, belo porém modesto, simples mas aparentando ser portador de todos os recursos que fazem de um piano esse instrumento singular, inigualável e insubstituível.

Vê-lo ali, não me lembrou os pianos de concerto, na monumentalidade das salas para recitais. Antes, associei esse velho piano às salas de casas antigas, em que o piano era o centro das atenções nos saraus familiares.

Lembrou-me o velho e digno instrumento as aulas de piano que com ele terão acontecido. A quantas gentis moçoilas terá permitido o aprendizado básico da música? A quantos meninos e rapazes contrariados terá ajudado a vencer maçantes e infindáveis escalas?

Quem terão sido os professores dessa gente? Um velho cujos sonhos de se transformar em concertista naufragaram no mar das dificuldades práticas da vida ou na simples falta de talento? Uma não tão exímia pianista de salas suburbanas, que encantava concertos familiares, embalada pelos aplausos cúmplices de parentes condescendentes, mas que acabou na rotina das aulas impostas a garotos impertinentes e meninas aborrecidas?

As teclas do velho piano, hoje ligeiramente amarelecidas, devem guardar a memória de muitos dedos – ágeis uns, lentos outros, inseguros muitos. Na pressão sobre essas teclas, um carrossel de emoções estava presente: paixão, raiva, saudade, ternura, amorosidade, tudo convertido em sons pelo milagre da música.

E o som desse velho piano? Terá voado, com certeza, pelos ares da casa, inundando as tardes, noites e manhãs com suas melodias. Os vizinhos mais sensíveis terão podido viajar de forma deliciosa nas ondas musicais. É quase certo, também, que alguns terão se incomodado com as escalas mil vezes repetidas e com o ta-ti-bi-ta-te musical dos aprendizes. Isto, porém, faz parte das coisas inevitáveis com as quais sempre conviverão os que têm a sagrada missão humana de construir a arte.

Pianos pensam? Se pensam, o que pensará esse velho piano da homogeneização imposta pelos sintetizadores, impossibilitando a sutileza dos toques nas teclas, em que a movimentação dos martelos e a percussão das cordas são uma extensão de dedos e braços movidos por outras cordas e batidas – as dos corações de quem toca?

O que pensará, o velho piano, da falta que fazem as aulas de música nas escolas, formadoras de gosto, de sensibilidade, e que eram garimpeiras de talentos musicais ainda em seu nascedouro?

Lá está o velho piano. Silencioso. Pleno de dignidade. Guardando nele a memória de notas, harmonias, melodias, e de tantos pianistas cujos dedos percorreram suas teclas.

Esse velho piano é mais que um piano. É uma homenagem ao bom-gosto, ao talento. E, sobretudo, ao amor pela música e à perseverança das professoras e dos professores de música, também estes guardando em sua memória a lembrança de tempos em que as melodias primavam pela suavidade admirável, pela melancolia doce, sincera, ou pela vibração intensa, enérgica, de muitas passagens musicais.

Quem sabe se esse antigo instrumento ainda encontrará um velho ou novo professor ou professora de música com amor necessário para fazer reviver o velho piano, com intensidade, em aulas que descobrirão jovens capazes de levar avante o eterno milagre da boa música…

Bendito seja esse velho piano, guardião, hoje silencioso, da beleza musical.

*Para a Lena, pastora de sons e talentos

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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