Um vovô na internet

Nicholas Vital

Da janela de seu escritório, do alto do 24º andar de um edifício comercial na avenida Paulista, coração empresarial de São Paulo, Antonio Augusto Amaral de Carvalho observa o vai e vem dos carros enquanto pensa na vida. Aos 78 anos, Tuta, como é conhecido, poderia estar planejando uma viagem com os netos ou um passeio qualquer, mas ele não é um homem que nasceu para levar uma existência comum. Dono da rádio Jovem Pan, uma das maiores do Brasil, Tuta tem no currículo nada menos do que a primeira transmissão de tevê ao vivo entre o Rio de Janeiro e São Paulo, que ele ajudou a realizar, e a criação dos festivais de música da Record, que lançaram artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil e levaram a emissora à liderença durantes os anos 60. Ele poderia passar o tempo relembrando seus feitos notáveis, mas Tuta não quer saber de sossego. Agitado, inquieto e apaixonado pela rotina do trabalho, este quase octogenário agora se diz um homem da internet.

Ele foi o principal responsável pela reformulação do portal online da Jovem Pan, que se limitava a retransmitir notícias da rádio. Agora, o site da Pan tem até tevê – e isso é obra desse simpático velhinho.

Para levar adiante a nova empreitada, o empresário contratou o diretor Nilton Travesso, ex-diretor do núcleo de teledramaturgia da Globo e amigo de longa data, para tocar o negócio.

“Quero colocar grandes musicais, shows e todo tipo de entretenimento à disposição dos internautas, inclusive para download”, diz Tuta. “Além disso, teremos um jornalismo forte, com espaço para informação, opinião e entrevistas com especialistas de diversas áreas. O grande diferencial é que na televisão existe a limitação do tempo, enquanto na internet podemos produzir materiais com até duas horas de duração”, continua o empresário, que deixou a cargo de Travesso a missão de estruturar e equipar o novo portal. Tuta, no entanto, está sempre por perto. Não só no site como em tudo o que envolve o dia a dia da rádio. A presença constante, diz, dá agilidade aos processos decisórios e torna a rádio uma extensão de sua própria personalidade. Da elaboração de reportagens especiais à liberação de verbas para viagens, tudo passa pelas mãos do chefe, que vive com as portas de sua sala aberta e não tem sequer uma secretária para cuidar de tanta demanda. “A figura do dono já não existe mais nos meios de comunicação, mas ela é vital para o andamento da empresa”, diz Tuta. “Quem mais do que eu pode saber o que é importante ou não aqui?”, questiona.

Com um estilo bonachão, conhece pelo nome a maioria dos funcionários da rádio – seja qual for o nível hierárquico – e não perde a chance de fazer uma piada. Por outro lado, quando as coisas não vão bem, é o primeiro a cobrar sua equipe. “Nenhum dono de televisão ou rádio que eu conheci, em meus 40 anos de trabalho, é mais do ‘ramo’ que o Tuta”, diz o apresentador Fausto Silva, ex-repórter esportivo da Jovem Pan. Outra pioneira da televisão, a apresentadora Hebe, reforça os elogios. “Cheguei à Jovem Pan em 1967 e me lembro que o Tuta já participava de tudo. Todos aprendemos muito com ele”, diz Hebe. Até José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que costuma ser arredio para falar dos outros, é só elogios. “Tuta é um profeta”, afirma Boni.

Com cerca de dois milhões de visitantes únicos por mês, o novo portal da Jovem Pan começa a se firmar entre os grandes e, consequentemente, gerar novas receitas para o grupo. Quanto? Isso ele não revela nem sob tortura. “Quanto custa um anúncio no meu site? Não sei. Não existe uma quantificação exata na internet. Uns falam que pode ser R$ 10 mil, outros acham que não chega a R$ 1 mil. Dizem que há institutos e pessoas capacitadas para dar uma informação absolutamente correta, mas o preço que elas cobram torna o serviço inviável. Pelo menos para nós”, despista. “Se a Jovem Pan é hoje uma empresa financeiramente saudável, é porque eu não gosto de jogar dinheiro no lixo”, completa o empresário.

Tuta está de olho num negócio que, segundo especialistas, ainda está muito longe de atingir o seu potencial. Hoje as verbas publicitárias destinadas à internet já se equiparam às da televisão em alguns países desenvolvidos. No Brasil, estima-se que seja destinado R$ 1 bilhão por ano em anúncios veiculados no universo virtual. É pouco perto dos R$ 20 bilhões que o setor publicitário movimenta no País. Tuta, porém, sabe que isso tende a mudar. É bom mesmo não duvidar do homem que ajudou a consolidar a tevê e o rádio no Brasil.

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