Uma árvore de presente

Natal que é data de remorso. Quando tudo pesa. Aí, a gente lembra do que fez – ou deixou pra trás. Mas se tinha coisa certa nessa vida – e não pra consciência doer menos – era eu ir mais o João, visitar dona Teresa. E sempre assim: no Natal. Nem sei por que. Mas ia! Era tia dele; velha e pobre de dar pena. Nós não somos ricos, nem lá muito jovens. Mas como era velha e como era pobre. Parecia, talvez por isso, visita de remorso. Mas qual! Eu gostava mesmo da velhinha! Sentimento honesto. Adorava aquela pobreza toda. Nem sei quem gostava mais dessas visitas, se eu ou ela. E que tinha alguma riqueza nessa vida marginal, isso ninguém me tira. 

Vivia há quarenta anos com um mesmo preto velho, sem ter filhos. Pudera. Ia dar vida sem nem bem tê-la? Talvez o abandono a fizera menos infeliz. Não sofria as dores do convívio, não se comparava. Até por que, não havia mesmo com quem o pudesse fazer. Nunca vi coisa igual. Que vida! Ir até lá… Só nós!
         
Era o pôr-do-sol do dia vinte e quatro e a casa ainda tava em meio ao mesmo arvoredo beirando a estrada de chão pra Jamaica, fazenda antiga que só, desses confins. Passasse distraído, se perdia o trio de pedra que dava caminho até o fundo do terreno. Era por causa do barro. Carecia-se mesmo de um melhor assentamento, mas por hora chegava. Pro ano se faria tudo. Do portão até a casa, feita toda com material dado, parei sem contar as vezes em que olhei pra cima admirada de uma árvore mais linda que a outra. Era quintal forrado dos ipês mais altos já nascidos nessas bandas. Nunca vi abandono tão cuidado. A cerca era de bambu, e tinha ao lado umas touceiras de Espirradeira, aquele tipo de flor que vai nascendo sem pedir. De resto, as sobras do lixo que ela catava na rua tapavam o buraco que dava pra varanda da vizinha. Fomos entrando e dei com o preto Jurandir que nos sorriu largo e surpreso. Ela estava no banho. Mas foi ouvir voz, largou pela metade com medo de a visita ir embora. Chegou embrulhada. Beijou o sobrinho, apertou minha mão. Dá só o minuto de eu pôr roupa! Voltou num instante. Tava era feliz. Aquelas paredes de caiação nunca viam gente nova. Só mesmo eles dois. E a Virgem Maria da folhinha. A mesma fisionomia doce de três anos atrás, quando a ganharam no mercado da cidade. Vocês me dão de aparecer assim? Nem arrumei foi nada! Não tinha o que arrumar. Foi passar café.
        
Não tinha quase mais os dentes e os cabelos eram brancos como flor de laranjeira. Baixa, magra, sofrida. E o sorriso que nunca saía do seu rosto. Pagou durante longo tempo a previdência, mas vivia mesmo era com o dinheiro do lixo que inda cata. O fogão era de barro, mas ficava do lado de fora. Um luxo com a brancura da parede que só vendo. Não seria a cinza de lenha do almoço que sujaria a cal que conseguira pra alvejar suas quatro e humildes fronteiras. Assim, mantinha as aparências de que o pau-a-pique de sua vida se vestia. E o gosto da comida feita assim. No estalo dos angicos. A lâmpada, dependurada por um fio, apagada. E a luz pouca, que vinha do resto do sol daquele dia. Disso era sua vida. Restos dos dias. Restos dos outros. Seu luxo. A sombra das árvores tremia nas paredes frente à porta.

Gritavam uns dez sanhaços trás da casa, pelas bananeiras. Comiam dos seis cachos podres; enchiam o coração daquela tarde que mais era alheia ao mundo. Olhei João. Ele me fez sinal. No canto do quarto, além do altar com três santinhos e velas acesas num pires lascado, foi que vimos na mesinha, cobertinha com toalha de papel, uma pequena árvore de natal. Não se tinha o que comer, mas lá sua fé nos galhos secos de um pezinho de jaboticaba, isso havia. Tinha paina pendurada, uns plásticos de ovo de páscoa, e o caule enterrado na areia dentro da lata enferrujada. Voltou com o café nas xícaras de ágata esmaltadas e o bule vermelho achado na cidade. Nem se deu que nós chorávamos baixinho. Vão tomando que se esfria. E esse é do quintal. E nós ali. Pendurados junto das tralhinhas achadas também pela rua. Seu Jurandir nos viu, mas não falou foi nada. Tava tudo ali. A gente e os galhos. Secos. Sem presentes por debaixo. Disso também não carecia.
        
Dos chinelos aos guarda-chuvas, tudo ali vinha do lixo. Só a cama não. Vinha das árvores do quintal, feita à mão por eles mesmos. E a vassoura. De folha de alecrim. Terreiro bem varrido. E que capricho. O cheiro do café. Na parede uns quadros velhos, já amarelados, que não dava nem pra ver. Cheiro de tempo.
         
Ficamos lá foi meia hora e por descuido, quase ela bota mais água no feijão. Queria gente pra jantar. Não pudemos. Vamos chegando. Tenho filho, dona Teresa. Solta essa molecada pra senhora ver só uma coisa. Enquanto me despedia, Jurandir contou pro João dos planos do muro novo que faria. Ganhara material pra proteger o quintal.
        
Que é aquilo ali?, eu disse. Marva. Dá uma muda, dona Teresa? Faço pra você, e quando for pro sítio vem buscar. Só o tempo de a raiz pegar. Faz bem como o quê. Coceira, irritação, ardido. Tiro e queda. Fica assim, quando eu for pra lá, volto buscar meu pé. Vê se é dantes do natal que vem. (riu-se toda). Vai que não agüento! Agüenta! Mas venho, sim. Deus acompanhe. E nos guarde. Seu Jurandir! Mais um ano procês e bom natal. Obrigado da visita.
Hoje eu sei o que, naquele dia, não tinha percebido. Nós fomos o presente que não tinha embaixo dos galhinhos. E a árvore, o jeito deles de dizer obrigado.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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