Uma atriz inespecífica

Thiago Sogayar Bechara

Thiago e Imara em "auto-foto", tirada por Thiago Bechara

Dois aquarianos morando em São Paulo. Dois filhos de Iansã com Ogum. Dois amantes da palavra e do conhecimento. Dois curiosos compulsivos e obsessivos. E, no entanto, tão diferentes, vindos de realidades psíquicas, geográficas e de experiências de vida absolutamente distintas. Assim se podia descrever a relação que se estabeleceu entre o paulistano Thiago Sogayar Bechara e a carioca Imara dos Reis Ferreira. O primeiro, um jovem, na época, com 22 anos, recém-formado em Jornalismo. A segunda, uma atriz veterana, consagrada no cinema, no teatro e na televisão brasileiros, embora há alguns anos fora do grande circuito midiático tão necessário nos tempos de hoje para que um verdadeiro artista seja pelo país reconhecido como tal.

O encontro foi inesperado. O que se seguiu a partir dele, também. Thiago foi ao teatro com uma amiga e não se atentou para o fato de que no elenco da peça estava Imara Reis, a protagonista de um dos filmes dos quais participou a cantora e atriz Cida Moreira. Thiago e Cida são amigos há alguns anos e Thiago pesquisava na época, seus 30 anos de carreira, para a escritura do livro que ainda está por ser lançado, ano que vem. A oportunidade ao final da apresentação aquela noite, de pedir à Imara um depoimento sobre as filmagens de Flor do desejo, de Guilherme de Almeida Prado, foi criada seguindo um método de abordagem todo respeitoso, conforme os princípios instituídos pelo jornalista iniciante. Mas Imara logo quebrou o decoro e lhe disse que o conhecia. De onde? Programa do Jô! Como pode? Ao lado da Cida, sentado no sofá.

Tratava-se – óbvio – de uma pequena confusão. Ao lado de Cida no programa estava André Frateschi, e Thiago apareceria ao meio da entrevista, com Cida, apenas em foto exibida pelo telão. Foi o que Thiago tentou dizer à Imara, cuidadosamente. Revide! Imara conhece André desde que nascera e o vira muito bem com Cida. Pois Thiago estava no sofá mesmo, entre os dois! Que seja, não iria discutir para não criar embaraços. Não estivera nem sequer nos estúdios da Rede Globo, no dia em que La Moreira o avisou que participaria do talk show. Mas ficou no ar a sensação da materialização de um pequeno milagre cotidiano. O jornalista fora visto, punto e basta. E hoje questiona se de fato Imara e ele não se conheciam – de outros tempos!

Depoimento sobre a Cida? Claro que dou. Minha casa está em obras, que tal na sua? Evidente. Moravam perto. Uma carona? Aceito. Foram tomar uma cerveja! Com a aprovação da amiga de Thiago que atentava para tudo, silenciosa, como boa oriental que era. E uma amizade nasceu. Sem interesses, reservas ou pudores.

Meses depois, nasceu também a ideia de um livro sobre Imara e sua carreira. E mais outros para a proposta editorial numa coleção de perfis lançado há alguns anos pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. A Coleção Aplauso parecia ideal para os propósitos pensados por Thiago e Imara. Um perfil-didático. Mas não de um didatismo ingênuo que subestime o leitor, e sim um trabalho útil!
A ideia, conforme é dito em seu texto de apresentação, foi desde o berço, a de um livro que carregasse consigo a alma da atriz e diretora; e nisto vai o ímpeto de partilhar informações – de modo generoso, caótico, é verdade; mas, neste sentido, bastante parecido com o fluxo da vida, que tão bem Imara soube aproveitar em benefício de seu enriquecimento e daqueles que tiveram a chance de entrar em seu universo de assimetrias, anseios, prazeres, dúvidas, inseguranças, sucessos e crises. Uma vida assim rica servirá de referência, é certo. Para o bem e para o mau. E para rirmos e chorarmos. Porque o livro não partilha só conhecimento. Ele partilha emoções. E aqui sua utilidade está transfigurada em conceitos correlatos a que este termo possa servir.

Se a arte dos palcos é, antes de mais nada, a de emocionar, então tocar a inteligência e o sentimento do leitor com um trabalho que, além de tudo, presta favor à documentação da história do teatro num país entupido de talentos nem sempre reconhecidos, não seria, pensavam os dois, uma tarefa difícil. Foi! Difícil, densa e extremamente prazerosa, ao passo que ambos saíram do processo renascidos de uma ou de outra maneira. Resultado: mais de 600 páginas possíveis de serem lidas como um bate-papo informal, engraçado e, sobretudo, relevante aos nossos tempos e ao ofício do artista brasileiro em seus processos de criação.

Foram apenas três, os meses em que se deu a captação dos depoimentos da personagem, e os pequenos testemunhos escritos por alguns convidados sobre a atriz: junho, julho e agosto de 2010. Até dezembro o trabalho estará disponível nas livrarias. Um milagre editorial! Um milagre em nossas vidas. Parabéns a todos os envolvidos no processo gráfico da obra e um obrigado especial à Imprensa Oficial do Estado de São Paulo que nos possibilita a veiculação destas belas ideias. AH! O nome da amiga de Thiago, e testemunha ocular de todo o início deste processo é Natalia Keiko (rs.)!

Agradecimentos especiais: Alan Fresnot, Ana Lucia Charnyai André Sturm, Andréa Weber, Antônio Abujamra, Beatriz Segall, Caio de Andrade, Claudia Alencar, Claudia Borioni, Claudio Erlichman, Clovis Levi, Cristovão Tezza, Danielle Farias, Elba Ramalho, Eliana Bueno, Esmir Filho, Giovanna Crispim, Graça Berman, Graça Rollemberg, Guilherme de Almeida Prado, Helena Martinho da Rocha, Hubert Alquéres, Ignácio de Loyola Brandão, Laís Cerullo, Lauro Escorel, Maria Adelaide Amaral, Maria Elisalva Oliveira-Joué, Maria Thereza Vargas, Marilena Castaldelli Maia, Mirna Grzich, Nany People, Natalia Keiko, Renata Zhaneta, Ricardo Miranda, Ricky Mastro, Roberta Vaz, Rubens Ewald Filho, Sami Bussab, Sandra Genes Borghi, Selma Brisolla, Sérgio Bianchi, Solange Brianti, Sung Sfai, Suzy Rêgo, Tania Alves, Tonico Pereira, Tuna Dwek, Vander de Castro, Wladimir Soares, Zita Carvalhosa.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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3 respostas
  1. Sandra says:

    Mais uma contribuição, certamente primorosa, de Thiago Sogayar Bechara à história cultural deste país. Quando jovens talentosos, dedicados, envolvidos e competentes como ele tiverem voz e vez há de, finalmente, sugir um país como o sonhado por Monteiro Lobato, “feito de homens e livros”. Parabéns Thiago.

    Sandra

  2. Sandra says:

    1 Sandra
    26/11/2010 at 01:05
    Mais uma contribuição, certamente primorosa, de Thiago Sogayar Bechara à história cultural deste país. Quando jovens talentosos, dedicados, envolvidos e competentes como ele tiverem voz e vez há de, finalmente, sugir um país como o sonhado por Monteiro Lobato, “feito de homens e livros”. Parabéns Thiago.

    Sandra

  3. Thiago Bechara says:

    Finalmente o livro será lançado, minha gente:
    Dia 28 de março de 2011
    a partir das 19hrs, na Cinemateca Brasileira, São Paulo – SP
    NÃO PERCAM!!!

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