Uma emissora dedicada a dar apoio aos talentos paranaenses – 2

O elenco de radio teatro, comandado pelo eficiente Ivo Ferro, competia com os melhores do Brasil. A Bedois chegou a ter treze programas de radioteatro no ar, com uma invejável audiência na Capital e no interior do Estado. Foram, certamente, anos de ouro! Nos anos 1940 a Rádio Clube Paranaense passou por uma grande fase. Usufruindo uma exclusividade que permaneceu até 1946, quando foi fundada a Rádio Marumby, a Bedois era dona da audiência cativa de nosso povo.

A concorrência, criada pela “Emissora das Iniciativas”, aumentou quando em 1947 foi fundada a Rádio Guairacá, em 1949 a Rádio Emissora Paranaense e em 1955 a Rádio Colombo.?Nessa década os programas de auditório tiveram uma grande expansão. O desejo de entretenimento e a procura por espetáculos, que caracterizaram o início dos anos 1940, cresceram ainda mais com o término da Segunda Guerra Mundial em 1945. Depois de tanta tensão e tantas notícias tristes o povo queria diversão. A Bedois soube atender a esse anseio popular.

Além dos valores locais apresentavam-se artistas que vinham para shows no Cassino Ahú. Inicialmente a Rádio Clube transmitia diretamente do Cassino, depois do seu próprio auditório. Dentre as atrações nacionais eis algumas: Orlando Silva, Carlos Galhardo, Dolores Durand, Ataulfo Alves, Araci de Almeida, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira, Jorge Veiga, Yara Sales e Heber de Bôscoli, Odete Amaral, Isaurinha Garcia e Linda Batista. Entre os astros internacionais vale lembrar Tito Schipa, Pedro Vargas e Gregorio Barrios. O grande incentivador dessas apresentações era Jacinto Cunha que, anos depois, mesmo tendo deixado a parte artística para se dedicar completamente ao cargo de gerente da Rádio Clube, interferia com entusiasmo e prestigiava os artistas nacionais e internacionais.

Já brilhavam, também, excelentes artistas locais, alguns surgidos a partir de 1947. Tiveram fama Dora Lissa, Zezé Ribas, Hygina Bocchino, Adelino Fressatto, Iracema Celli, Zilda “la mexicanita” (Zilda Baldo), Enéas Passos (“o príncipe do ritmo”), a dupla Irmãs Passos, a acordeonista Wilse Araújo, as jovens sopranos Claudete Ruffino e Lúcia Cecília Kubis.?Para acompanhar os cantores a Bedois contou com a Orquestra do Maestro Angelo Antonello, com a Orquestra do Maestro Pirulito (Armin Otto Habith), com o pianista Athaide Zeike e com o Regional B-2, na época sob o comando de Janguito do Rosário. Já se apresentava, também, a Orquestra do Maestro Vitor Trinco que se especializou em músicas dos velhos tempos.

Os locutores famosos dessa época foram Jacinto Cunha, Lóris de Souza, Arthur de Souza e Wilson Martins.
Já no primeiro lustro dos anos 1950 outros valores foram surgindo na produção e apresentação de programas. Eis alguns dos que tiveram destaque: Graça Guimarães (foi diretor artístico e diretor de radioteatro, antecedendo Mano Bastos e Ivo Ferro em suas respectivas funções), Heitor Guimarães, Airton Goulart, Paulo de Avelar, Itané Carneiro Leão, Haroldo de Andrade, Brasil Borba, Leal de Souza, Morais Fernandes, Carlos Afonso e Helenita de Alencar.

Ary Fontoura, o consagrado ator do teatro e do cinema, presença marcante em tantas telenovelas de sucesso da Rede Globo de Televisão, também deixou o brilho de seu talento na Rádio Clube Paranaense. Quando lhe perguntei sobre sua passagem nessa emissora, em sua cativante simplicidade ele me disse: – Na verdade, minha passagem pela PRB-2 foi muito rápida. Fiz, durante algum tempo, um programa de perguntas e respostas chamado “Você me conhece?”, juntamente  com o elenco sob a direção de Graça Guimarães. Ele viera de Porto Alegre, onde atuava na Farroupilha. Era diretor artístico da Bedois. Fiz algumas participações rápidas junto com Zazá Maia, Esly Yara, Telmo Faria, Sinval Martins e muitos outros. Logo após, fui contratado pelo Ronald Stresser para formar o elenco de radioteatro da Rádio Colombo. Fui bem sucedido e o resultado foi magnífico, pois com isso abrimos uma concorrência saudável que só valorizou os atores locais.
Nos anos 1950 começou a grande batalha pela audiência. Com a extraordinária popularidade da Bedois e o excelente rádio que a Guairacá apresentava, a Rádio Marumby, que tinha os transmissores menos potentes e não desfrutava do apoio das verbas oficiais, teve que batalhar muito para se manter na crista da onda.

Antes de me transferir para a Rádio Clube eu fui diretor artístico e depois gerente da “Emissora das Iniciativas” e por isso participei dessa luta. Muito aprendi e adquiri muita experiência nessa emissora que revelou tantos valores para o nosso Rádio. No tempo em que não havia emissoras de televisão em Curitiba, o Rádio exercia um papel quase exclusivo no lazer do nosso povo, só dividindo essa tarefa com o cinema, na época em grande evidência, e com outras poucas diversões menos cotadas. O advento da televisão fez com que o Rádio se encolhesse, até mesmo se acovardasse. Muita gente, erroneamente, achava que era o fim do Rádio. Ninguém iria supor que as nossas emissoras de TV, em função dos elevadíssimos custos de manutenção, acabassem por se tornar afiliadas das empresas maiores, em parte apenas repetidoras das grandes emissoras dos nossos maiores centros, relegando a plano secundário as programações locais.

Isso fez com que se perdessem as características regionais, dificultando-se o surgimento de valores artísticos locais. A massificação fez com que os costumes, especialmente do Rio de Janeiro, fossem adotados em quase todo o Brasil. Até palavras que usávamos foram substituídas por outras, de diversas regiões. A nossa raia passou a ser pipa ou papagaio. A setra ficou sendo estilingue, e a gíria que usamos hoje quase toda vem de fora. Já pouco se ouvem as expressões inhapa (brinde, algo dado de graça), sapecar (chamuscar, o pinhão principalmente), piá (menino), búrico (ou búrica, o buraco feito na terra para o jogo com bolas de vidro), a gânha (quando o jogo valia algum lucro para o vencedor), a brinca (quando o jogo era apenas para diversão, o chamado leite de pato).  Pouco a pouco, as cidades perderam parte da sua identidade, as populações falando, vestindo e agindo como se fala, veste e age nos maiores centros. Há exceções, felizmente.

Nada contra se apreciar as peculiaridades alheias, desde que não sejam esquecidas as próprias.
Isso, contudo, é assunto para um estudo mais profundo ao qual não se propõe este trabalho.

Ubiratan Lustosa. O Rádio do Paraná – Fragmentos de sua história. Curitiba, 2009. Instituto Memória Editora e Projetos Culturais. 41 3352-3661. www.institutomemoria.com.br

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