Uma noite inesquecível

Vou pegar carona no esforço do José Alberto para narrar uma noite memorável de convivência com Alcides Gonçalves. É uma imposição da consciência.
Por Vilarino Wolff

Desde há muito tenho pregado por esses rincões afora que o brasileiro é um povo sem memória. E um povo sem memória é conseqüência direta da falta de oportunidades que deveriam ser criadas pelos meios de cultura, sejam eles oficiais ou não.  Muito mais deve ser cobrado daqueles que governam este país, em qualquer dos níveis, já que cabe aos governos o estímulo ao fazer cultural. Não podemos esquecer que só a cultura é capaz de modificar o procedimento das pessoas na essência. Por via de conseqüência, ela é geratriz do desenvolvimento humano.
Pois bem! Ao trazer o nome de Alcides Gonçalves à memória o José Alberto relembra o respeito e o carinho devido a um artista que cantou o seu tempo da maneira mais autêntica, sem estrelato, sem exibicionismo, vivendo a sua música como imposição da alma na construção da felicidade. A sua e a dos outros. Com o violão a tiracolo, a alma na ponta dos dedos e o coração a projetar-se através de uma voz inconfundível, ele pintava o ambiente do seu canto com as cores invisíveis da poesia envolta em prosa e melodia.
Foi uma noite muito especial. O cenário era uma casa antiga da Rua Santo Antônio, no Bom Fim. Ali residia minha sogra – Nelly Cunha – viúva do Tenor Fabrício Mesquita da Cunha. Como o Alcides chegou por lá, até hoje não sei. A verdade é que a dona da casa era grande apreciadora da música. Tivera suas horas de atuação também, como pianista, em concertos dos quais participava com o marido. Isso facilitava a sua convivência com o universo da música porto-alegrense, como de resto, com as outras artes.
A sala repleta de convidados ouvia o papo gostoso do seresteiro e curtia sua cantoria com devoção. Naquele tempo as pessoas ouviam os cantores. A televisão ainda não chegara para acabar com os prazeres mais vivos proporcionados pela seresta. As pessoas ficavam realmente sensibilizadas e deixavam-se embalar pelo conteúdo das letras e pelo encantamento das melodias. Diga-se, de passagem, que eram letras com conteúdo e a harmonia um desafio aos que se propunham fazer seresta.
Seria demais lembrar de todas as músicas que fizeram daquela uma noite especial.  É claro que a seresta incluiu Chão de Estrelas, Carinhoso, Cadeira Vazia (do Lupi), Rosa (de Pixinguinha), etc., e uma das composições do Alcides que tento lembrar até hoje o título. Parece que era “Uma valsa e uma saudade a mais” ou só “Uma saudade a mais”. Foi o tipo da música que bateu e ficou.
Eu contava, então, dezenove pra vinte anos. O Alcides devia estar beirando os cinqüenta. E se hoje sou entusiasta da seresta, curto e pratico esse gênero musical, não tenho dúvida de que muito disso é devido àquele encontro que, no mínimo, tornou-se a minha noite inesquecível.


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Por Vilarino Wolff

Radialista, jornalista, escritor e ator (teatro e cinema). No rádio foi comentarista político e comunitário, animador de auditório, apresentador de programas, noticiarista, narrador, locutor de comerciais e cerimonialista. Como político foi eleito para vários cargos públicos em Lages e Blumenau onde reside atualmente.
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