Uma palavra de despedida, apenas: sol

Estou perto de casa, noite. É hora de dizer adeus.

O que vai acontecer depois de que contar tudo não sei se, um dia, poderei contar prá você. Afinal, fomos amigos e posso chamar de você.

As madrugadas dos bailes, das boates, não mais existirão.

Afinal, noite amiga, outros virão depois de mim, prá serem também seus confidentes e amigos.

As mulheres continuarão procurando almas irmãs, os desesperados, amorosos, ricos ou pobres.

Eu, não mais, talvez.

Guarde com você, noite, as coisas boas ou ruins, todas as cenas enfim, das quais fui protagonista. Quando eu sair, na hora em que você estiver por ai, faz que não me conhece.

Não que não ame você, noite amiga, mas porque será melhor assim.

– Trouxe outra revista prá darmos ao nosso novo vizinho…

– Hum-hum

Meia noite. Não é hora de mostrar o registro. Ela está sempre com sono…

– Você leu a reportagem sobre as crianças na revista nova…?

– Não. Deixa-me dormir.

– Deixo.

O sol já veio. Uma mulher chora, ao lado da cama. Abre os olhos, já sabendo que chegara à encruzilhada final.

– Este registro… É verdade…?

– É verdade.

O drama. Formado o espetáculo, cujos personagens, reunidos, extasiados pelo tema, gaguejam no texto que não foi ensaiado. A vida teceu a trama. O céu desaba.

– Por que foi acontecer isso…? Eu já desconfiava!

– Eu sempre disse, minha filha, que ele não prestava.

– Tava na cara!

– Não chore, mãe…

– Como, não chora?

– Tua prima já tinha visto os dois de braço na Rua Quinze…

– De braço…?

– De braço! E rindo!

– E eu, palhaça, aqui passando fome! Sem nada dever! Cuidando das crianças, sendo honesta, sendo a mãe o pai delas todas…

– E você não diz nada?

– Digo, apenas, que voltei. Quero ficar aqui. Eu quero ser pai das minhas crianças outra vez.

– Só isso, não basta.

– Eu sei. A única coisa que precisa ser analisada é que, graças a uma força desconhecida, eu tomei uma resolução. Estou contando, publicamente, o maior segredo: a existência do meu filho.

– É um bastardo nojento!

– É meu filho.

– É um filho da puta. Quem tem um filho com homem casado é puta!

– Está enganada. Não é.

– Olha aí, mãe! Olha aí, tia! Ele ainda nega. Eu e as crianças passando necessidades e ele tirando dinheiro prá sustentar outra casa, sustentando uma vagabunda!

– Eu sempre disse minha filha, que não era possível o dinheiro não dar prá nada!

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