Uma plantinha tenra, porém valente

Somos os jardineiros dos jardins que queremos habitar. Terceirizar essa tarefa sempre será um ato marcado pela dor, pelo sofrimento, pela perda e pela renúncia

A modernidade tecnológica nas suas ânsias de agregação de valor aos seus produtos induz os seres humanos a buscar no consumo as soluções para todos os seus problemas. Somos exortados a nos distanciar dos elos afetivos e a arranjar remédios para todos os sintomas. Para cada dor humana a indústria tem uma poção mágica capaz de eliminá-la. Não nos perguntamos mais por que dói a cabeça, corremos para a gaveta e engolimos o primeiro e mais possante comprimido. Não queremos saber por que somos ameaçados ou incomodados por isto ou aquilo, imediatamente corremos em busca da armadura, da máscara, da blindagem.

Somos uma plantinha fadada a barrar os raios solares, a criar uma redoma em torno de nós e a buscar recursos alternativos que substituam a água, o alimento, o calor, o frio, a atmosfera.

Claro, o bronzeamento artificial, o ar condicionado, os complexos vitamínicos, os hormônios sintéticos, os anabolizantes, (o que mais?) tudo nos encaminha para o postiço, até mesmo as cirurgias plásticas, redução de estômago, implante de chips e muito mais.

Na corrida pela produção em larga escala, os animais e os vegetais são inoculados para darem respostas mais rápidas, abundantes e lucrativas. Esses aditivos, defensivos ou componentes transgênicos são, por conseqüência, introduzidos, em última análise, na vida biológica de uma plantinha tenra e até certo ponto valente, que é o ser humano.

Mas, isso tem um limite. Já passamos dele.

Já são notórios os prejuízos trazidos pela farinha, pelo sal e pelo açúcar refinados. Doenças como a hipertensão, o diabetes e a intolerância ao glúten eram desconhecias ao tempo dos pilões para macerar grãos, ao tempo dos tachos para obter o mascavo e ao tempo do sal marinho usado na cozinha.

Mas, não é só. A plantinha tenra chamada ser humano tem sido bombardeada pelas loucuras da urbanidade e vem tendo que suportar (se for capaz) a ansiedade, o medo, a raiva, os congestionamentos, as refeições apressadas e superlativas, o sono incompleto, a culpa, os distanciamento familiar, a exposição às radiações, as perdas, cujas conseqüências têm aparecido no amplo espectro das perigosas somatizações e rebeliões celulares.

O que não é natural leva qualquer plantinha à murchar. Por que não levaria, também, a plantinha humana a murchar? A murcha humana tem nome de estresse. E o estresse prolongado tem nome de doença física. A somatização evolui para algum distúrbio biológico. O barulho é nocivo. O excessivo dióxido de carbono é nocivo. O cigarro é nocivo. O álcool é nocivo. As drogas (todas) são nocivas. E nós aqui na praça dando milho aos pombos…

O organismo humano foi concebido para operar em harmonia e equilíbrio, situação em que ele se auto-regula e se provê de quase tudo. Fora daquilo que lhe é natural, o colapso pode ser esperado.

Cada um de nós como jardineiro de nosso próprio jardim sempre que tivermos de chamar pelo socorro externo, tenhamos como certeza, o socorro virá revirando, abrindo covas, podando, cortando fundo, eliminando algo, transplantando, substituindo, eliminando…

Somos os jardineiros dos jardins que queremos habitar. Terceirizar essa tarefa sempre será um ato marcado pela dor, pelo sofrimento, pela perda e pela renúncia.

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