Uma sociedade conformada ou desfibrada

Não seria bem essa a palavra, mas se eu disser com mais impacto, você se ofenderá, chutará o pau da barraca, alterará a voz, dirá o que não deveria dizer, virará as costas, se retirará, parará de ler e quem sairá perdendo é o coletivo. Epa! Não é o coletivo, não, é o individual e o reflexo acabará no coletivo, na família, nas vizinhanças, no condomínio, no bairro… Sabe do que estou falando? É da sua participação na vida coletiva! Sabe por que você não vai às reuniões do seu condomínio? Pelos mesmos motivos você nem sabe em quem votou para vereador e, portanto, não liga pra ele, não cobra nada. Mas, vive dizendo que o governo é uma m…, que nada faz, nada resolve… O motivo é simples: você paga, terceiriza, não quer envolver-se.

Somos uma sociedade conformada, isto é, encolhida, desfibrada, acovardada, paciente, tolerante, parece culpada, escondida, amedrontada…

Veja, há tanta coisa para reclamar e cobrar, fazer e melhorar, mas a maioria dos nossos amigos, vizinhos, cidadãos não está “nem aí”.

Não é uma questão recente. Isso vem de longe.

Talvez a esta altura você já esteja desistindo de continuar esta leitura. Parece que você “não tem saco” para muitas coisas, mas em compensação tem um “caminhão de sacos” para outras, às quais você dá de ombros e embarriga.

Fazer o que? É uma expressão de impotência muito assiduamente pronunciada. E assim, se não há o que fazer, deixa como está.

Não ficará como está!!!

O cidadão paga seus impostos, além do aceitável, mas vai buscar educação, segurança, assistência médica e hospitalar sempre por outros meios, pagando outra vez essa conta.

O cidadão teria muito a contribuir para a melhoria da vida, mas ele não quer se incomodar, ele não sugere, ele não assume, ele não faz e, pasmem, parece que não quer que façam.

Pois, se quase todos os serviços públicos que seriam extensivos à classe média (aquela que paga as contas) nós buscamos no âmbito privado, por que os serviços públicos extensivos aos pobres não existem, mesmo assim?

Em alguns casos, nós queremos que seja feito e até concordamos de pagar, mas não queremos nos envolver, nem para planejar, nem para fiscalizar.

Reclamar, reclamamos (em tese). Reclamamos menos do que deveríamos. E sempre no tempo e lugar errados.

Mas, no geral, reclamamos erradamente, porque só vamos atrás do erro, depois da coisa feita. Fazer o certo, nós assumimos. Fazer o melhor, na fase do projeto, da sugestão, não é conosco.

Em casos mais extremos, a nossa participação é autoritária: se não sair como quereríamos, estará tudo errado e nós nos retiraremos de dedo em riste, protestando.

Veja, leitor, em rápidas palavras chegamos aos principais nós que entravam muitas coisas no desenvolvimento harmônico de nossa sociedade.

Quantos problemas a sociedade deixa de resolver porque a autoridade não acredita em nossa organização e na nossa força. Sociedade fraca, como diz Newton Carvalho, governo forte.

E o que é mais grave ainda: aí no seu condomínio e aqui no meu os carregadores de piano vão cansando e vão perdendo o entusiasmo, vão abandonando e as coisas vão minguando, minguando, até morrerem.

Ao agradecer seu gesto como leitor por haver chegado até esta altura da leitura, quero ir além, quero que você tome uma atitude: saia da contemplação, mexa-se, apareça nas reuniões, assine sua filiação a um partido político e faça parte das decisões, impedindo que essa máfia política continue a indicar os candidatos, piores candidatos, para que sejam sufragados.

Se essas reuniões são uma chateação, com todo mundo falando ao mesmo tempo, erga a voz, proponha organizar, ponha ordem, que fale um por vez, que se limite o tempo da fala, discipline o debate, respeite-se a maioria, respeite-se a minoria, mas o que não podemos fazer é virar as costas para as coisas mais importantes de nosso dia-a-dia e deixar tudo como está, isto é, sempre pior.

Você sabe que irá piorar.

E se nessa sua atitude cidadã sobrar um pouquinho de energia, vá somar no seu condomínio, nas audiências públicas que decidem a vida da cidade, vá ajudar nas melhorias de seu bairro ou região.

Olha, este articulista está cansado de ver gente boa, como você, apontar o dedo para a polícia, para o vereador, para o prefeito, à espera das soluções que não vêm e não virão enquanto eu e você não formos bater panelas à frente dos gabinetes.

Será que nós iremos morrer dessa inação? Da conformação? Da benevolência para com a incapacidade e a sovinice dos agentes públicos?

Acho que não. Ajude-nos a sobreviver enquanto é tempo.

Homero Franco – jornalista aposentado

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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