Vanguarda marcou a história do rádio em SC

Meio-dia e meia. É hora do almoço. A família, os amigos reunidos, o homem de negócios que, sem tempo de voltar pra casa, faz um lanche rápido em alguma padaria do Centro da capital catarinense, todos prestam atenção no rádio.

[Por Janine Silva ]*

A voz que sai do aparelho anuncia: ZYT 26, ZYT 29 , estações de Florianópolis da Diário da Manhã. Vem aí a equipe de Vanguarda sob o comando de Adolfo Zigelli.

Adolfo Zigelli aos 19 anos apresentando comício com o irmão Walter pela emissora de Joaçaba

Adolfo Zigelli aos 19 anos apresentando comício com o irmão Walter pela emissora de Joaçaba

Operador de áudio roda a vinheta com locução de José Valério Medeiros: “Bradesco, garantia de bons serviços, apresenta Vanguarda. O que se faz. O que se diz. O que se pensa. Gente. Notícia. Opinião. Vanguarda!” E está no ar o programa opinativo mais importante de seu tempo e que permanece gravado na memória de todos que tiveram a oportunidade de ouvir e fazer parte dessa história que durou quase dez anos.

O Vanguarda nasceu em 1967, quando o jornalismo engajado iniciado com o programa  Governo do Estado em foco e, depois, continuado pela A marcha dos acontecimentos, a favor da União Democrática Nacional (UDN), dá espaço ao exercício do radiojornalismo profissional. Agora, o compromisso com a sociedade e o direito à informação estavam acima das preferências políticas, não obstante estar em pleno vigor a ditadura militar.

As mudanças, propostas por Adolfo Zigelli (um fervoroso udenista), aconteceram num período frágil da história do Brasil: os militares haviam tomado o poder há pouco. O MDB e ARENA eram os únicos partidos reconhecidos e o povo se dividia entre lutar contra o cerceamento da liberdade ou apoiar a ditadura e comemorar as vantagens oferecidas pelo novo regime. O novo noticiário era arrojado para os moldes da época; porque inovador,  propunha isenção e imparcialidade num momento em que apoiar o governo garantia a sobrevivência da emissora. Tornou-se campeão de audiência. O público foi atraído pela objetividade dos fatos, a linguagem direta e pelas informações que interessavam a todos. As críticas, sempre expressadas em tom de ironia e humor, também eram um chamariz.

O programa era a representação de seu criador e não sobreviveu à sua saída. Em 29 de maio 1975, Zigelli deixou os estúdios da Diário da Manhã para assumir o cargo de Secretário de Imprensa do Estado  a convite do governador Antônio Carlos Konder Reis. Adolfo Zigelli morreu três meses depois, quando o avião em que viajava para Joaçaba, sua terra natal, caiu. O Vanguarda foi cancelado no mesmo ano por falta de audiência.

No manual de radiojornalismo da Diário da Manhã, Zigelli deixa claras as medidas que deviam guiar o trabalho de seus colegas de emissora e que devem servir como base a todos os que praticam o jornalismo atualmente: Quando tiver que prejudicar alguém no interesse público, pense duas vezes. Quando tiver que favorecer alguém, em particular, pense dez vezes. Quando tiver que prejudicar o interesse público, nem precisa pensar: rasgue o que escreveu.”

Ouça no player acima a edição do dia 12 de outubro de 1971 do programa Vanguarda encontrada nos arquivos do Museu do Rádio de Santa Catarina. Entre os assuntos abordados, o caso de catarinenses levados à Alemanha para trabalhar em condições análogas à escravidão.

* Janine Silva é aluna da 5ª fase do curso de Jornalismo da UFSC e voluntária no projeto de extensão Museu do Rádio de Santa Catarina.

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