Varandas

Varandas humanizam as casas com sua possibilidade de abrirem nosso olhar e nossos corpos para o imenso mundo lá de fora, mesmo quando permanecemos no abrigo seguro do lar.

sacadaOlho daqui e vejo varandas suspensas em quase todos os edifícios mais novos em volta. Essa é uma salutar tendência incorporada às moradias verticais. Já que morar “empilhados” nos edifícios é uma inelutável necessidade nos conglomerados urbanos, que pelo menos essa parte das casas esteja presente.

Uma varanda é o cerne de qualquer moradia; está na essência do morar, desde que nossos ancestrais procuraram abrigo. As cavernas ofereciam proteção contra as intempéries, mas não estabeleciam essa relação especial com o “lá fora” possibilitada pelas varandas.

Embora nos permitamos fazer piadas com os portugueses, foram os nossos avozinhos d´além-mar que humanizaram as sólidas casas tropicais, acrescentando a elas o benefício das varandas.

Estar numa varanda é estabelecer comunhão com o vento que visita nosso corpo, muitas vezes junto com o sol, mesmo se estivermos encarapitados num vigésimo quinto andar – ou mais alto, ou mais abaixo.

Ah, as varandas das casas! Quem não se lembra delas, se as teve alguma vez na vida. A varanda era o limiar da hospitalidade, a antecipação arquitetônica do abraço.

Nas varandas, brincavam as crianças, especialmente quando a chuva impedia a brincadeira nos quintais.

Quanto namoro sério, ou “avanço” ousado, não trouxe emoções intensas, ao corpo e à alma, no espaço das varandas.

Pássaros, soltos e vindos das árvores circundantes, ou lamentavelmente presos em gaiolas, cantaram por séculos em varandas, alegrando a casa e a vida dos moradores.

Que seria das avencas, samambaias, de muito jasmim cheiroso do tipo em trepadeira, sem as varandas? Como se aproximariam para perfumar os lares nas noites de calor ou no friozinho das madrugadas?

De onde poderiam ser vistas, num abrigo seguro, as múltiplas cascatas translúcidas chamadas goteiras, senão das varandas?

A própria palavra “avarandado” não parece, ela mesma, prezado leitor ou ouvinte, um pedaço de verso solto da cantiga de um trovador? Ou uma palavra feita para compor a letra da canção de um seresteiro?

Mesmo postas lá no alto dos edifícios, nas cidades tão desumanizadas, bem vinda seja a permanência das varandas, esses espaços muito necessários para vincular o abrigo com a exposição, a clausura com a liberdade.

Observando varandas, desencanto-me ao ver que são tão pouco frequentadas. Repare, caro leitor ou ouvinte, que quase não se vê gente nas varandas. Justamente nesse espaço que, deturpado pela especulação imobiliária, ganhou recentes e até há pouco tempo inimagináveis espaços nos apartamentos.

Se, para vender apartamentos, as varandas são vendidas como atrativos, por que será que tão poucos moradores ficam nelas?

Não tenho respostas, paciente leitor destas linhas; tenho somente essa indagação que marca a existência das varandas modernas, mostrando a contradição de varandas cada vez maiores, sendo aproveitadas cada vez menos.

Mas nada disso importa. Quem como eu já vivenciou o espaço de varandas, ainda as ama e, onde quer que estejam, as pode ver em lembrança visitadas pelo vento, pelo sol, galgadas por trepadeiras, enfeitadas por samambaias e perfumadas pelo jasmim.

Hoje, no apartamento em que moro, não tenho o benefício inigualável da varanda. Mas digo para mim mesmo: o que vale é avarandar a vida!

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