Vargas e a propaganda, o carnaval, o futebol, o rádio…

Afinal, alguém tem que um dia estudar essa relação de Vargas com as novas formas, não da indústria cultural, porque aqui não tínhamos esse tipo de indústria da qual só recebíamos os produtos, mas do espetáculo-negócio nacional que se monta na capital. Por Roberto Moura. (*)

Isso, compreendido de uma forma ampla, englobando nesse conceito tanto a rede de cinemas, teatros e casas de espetáculos, como o universo do futebol, do carnaval, o rádios e os discos, etc. Já antes do golpe de 1930, foi Getúlio quem viabilizou a possibilidade de inserir publicidade nas ondas radiofônicas, antes um negócio meio esotérico, que com a comercialização explode na vida brasileira – todo um reagenciamento de emoções e expectativas das multidões urbanas que ocorre na era Vargas.

Com a Rádio Nacional ele monta o primeiro sistema de informação e entretenimento que atinge todo o país. Em sua política do carnaval, Vargas institucionaliza os desfiles das escolas de samba, deixando-lhes a salvo da repressão e alvo de benefícios do Estado, integrando-as ao calendário nacional e lhes impondo os temas da história oficial do país – aliás, ele legisla e regulamenta detalhadamente tudo o que tem a ver com a festa carnavalesca, dos quesitos do samba aos banhos de mar à fantasia.

Verifiquem o surrealismo. Sem falar no futebol, que em 1933 se torna profissional para poder absorver os jogadores negros nos clubes de primeira linha, o que redefine o jogo e cria uma escola brasileira de jogar futebol, que seria uma das nossas primeira formas de afirmação internacional.

E muito mais: as primeiras leis de favorecimento ao cinema brasileiro, a abertura dos cassinos, a redefinição da capoeira, recalcada como signo da história do negro no Brasil e tornada na arte marcial brasileira por excelência. Tantas coisas que podem ser associadas à sua forma de organização e controle de massas, que deram respaldo a um governo político, que manteria, enquanto deu, uma relativa independência frente aos grandes grupos de interesse econômicos no país.

(*) Cineasta e professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense, no livro “Grande Othelo”.

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