Vera Sabino, uma arte de epifanias sob o céu azul de Brasília

Nos dias que correm em que o destempero nacional continua gigante e o País caminha numa corda bamba que parece não ter fim, a bela Brasília – a nossa Ilha da Fantasia, não é tão somente a ínsula morada dos políticos corruptos e sem noção.

Vera SabinoBrasília é capital do Brasil e a efervescência de sua vida não se limita a lâmina d’água do Palácio Nereu Ramos, sede do Congresso Nacional, muito menos está restrita a circulação pelos tapetes verde e azul que revestem e distinguem a Câmara do Senado, no monumental edifício projeto do inigualável arquiteto Oscar Niemayer e merecidamente ícone da arquitetura brasileira, patrimônio cultural e símbolo do Brasil.

Brasília é uma cidade linda! Quente. Colorida. Exuberante. Viva. Sim, Brasília espelha uma multiplicidade cultural sem igual gestada na terra vermelha e no verde escuro do cerrado onde a força da sua gente “candanga” constrói o amanhã sob o incomparável ceú azul profundo. Pois, parece que a cidade se configura acima da linha do horizonte.

Certo está o arquiteto do Iphan e da Comissão de Patrimônio Mundial da UNESCO, Carlos Fernando de Moura Delphim, quando afirma que “Brasília está imersa dentro do céu e acima do prórpio horizonte. É o que tem de mais bonito e sutil”. Só posso concordar e creio que Oscar Niemayer pensou na beleza do planalto e no céu de Brasília ao projetá-la com tanta harmonia e elegância nas formas.

Há quem diga que, no mundo inteiro, céu mais bonito não há. Há quem cante o Céu de Brasília nos versos de Toninho Horta e Fernando Brant: “[…] O mato, o sol da manhã, as folhas, os rios, o azul/ Beleza bonita de ver nada existe como o azul/ Sem manchas do céu do Planalto Central/ E o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções/ E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez”.

Brasília polo cultural estrelar respira arte e se ilumina para receber a ARTE maiúscula de Vera Sabino, num arte- vera sabinopanorama representativo dos 50 anos da sua trajetória criativa e pictórica que começou nos dourados anos sessenta, sob a inspiração do céu azul do planalto.

O pincel percorre a tela imaculada imprimindo a marca indelével, a epifania das formas e de um colorismo vívido que identifica o universo mágico de Vera Sabino, ícone das artes plásticas contemporâneas e uma das mais notáveis pintoras catarinenses. Na sua intensa linguagem plástica ilumina e faz vibrar os fervores insulares captando o mundo-ilha na fronteira entre o real e o imaginário, rompendo limites entre universos, aflorando o realismo fantástico que habita esta Ilha mítica de Santa Catarina, eternizando-o em suas telas.

No sentido estético e artístico, a “epifania” é um momento privilegiado de revelação. Posso afirmar que a arte de Vera Sabino é um contínuo desvendar por caminhos da historicidade cultural e de tradições alicerçadas no substrato açoriano sobrevivente no Sul do Brasil, onde a plenitude do olhar debruça-se sobre a efervescência do seu imaginário. Revela-nos a beleza telúrica no regaço do mar e no jeito de pertença do povo que carrega, na maneira de ser e de viver, a identidade cultural, onde se assenta todo o imaginário ilhéu, a criação cultural, celebrativa e única.

A arte de Vera é depoimento, verdadeiro inventário da alma do lugar. Sente-se o pulsar de tudo e de todos. Histórias, reais e imaginárias, tout court significante a descortinar a memória coletiva, singular mundividência de outrora, de hoje e do amanhã da nossa gente. Surpreende e comove. É preciso decifrar o emaranhado de traços cheios de sensualidade e ler o que escreve com pincéis e tintas numa inquietude sem fim. Foi bem isso que eu senti – “espanto e encanto” quando, em setembro de 1973, fui a vernissage de Vera Sabino no Studio A2, comandado pelo humorado e irreverente jornalista, Beto Stodieck, de saudosa memória. Desde, então, fiquei enredada na exuberância do seu imaginário, na liberdade de concepção, na magia inconfundível da sua arte.

acores- Divino VeraSua pintura madura, vibrante, etérea apresenta uma unidade formal ímpar, moldada num mundo figurativo em gradação sutil do vermelho, amarelo e azul na invenção de sua arte feiticeira de tons quentes, da sensualidade das formas que transparecem em epifanias do momento, onde tudo cabe e é permitido, no tênue fio que conduz e ao mesmo tempo separa o real do irreal.

Seus quadros emolduram o olhar doce ante a magia exuberante da natureza – flores e frutos colhidos no seu jardim ou seres marinhos que emergem do mar que abraça-nos no vaivém manhoso de suas ondas. A doçura da mulher

Vera em justaposição com o olhar de guerreira, de energia, de esperança, de crença e de luta na salvaguarda da sua Ínsula, abençoada por Santa Catarina de Alexandria, que tanto ama e defende.

Sua obra apresenta-se como uma fascinante narrativa visual. Passeia pelas tradições, mergulha na memória coletiva, revisita mitos e, no seu inconformismo com a realidade do momento, rebela-se, quebra padrões e deixa fluir a riqueza do imaginário insular.

Uma arte que navegou pelos caminhos do mar e chegou aos Açores. Um percurso reconhecido e respeitado no arquipélago dos seus ancestrais, onde a sua criação artística tem sido amplamente divulgada e admirada, sobretudo, ao fazer uma dia-crônica da Festa do Divino Espírito Santo, a maior manifestação cultural dos Açores, no arquipélago e nas comunidades da diáspora.

Ao fazer de sua arte instrumento de resgate e preservação do patrimônio cultural imaterial, transpondo para seus quadros símbolos, rituais, religiosidade, crenças, fabulário, canoas, tarrafas, rendas, tramóias labirínticas, laelias purpurattas, bromélias, crenças, mar, serpente, mulher, Vera rompe a visão estática do passado e vai ao encontro do nosso passado sem ser passadista.

Vera Sabino, adepta do realismo fantástico, percorre os caminhos, descortina a magia, e na sua mundividência busca inspiração nos usos e costumes da Ilha, nas lendas, rezas, fadários, sensações e sem qualquer inibição desnuda a Mulher. Mulheres rendeiras de olhos pretos profundos e vívidos como o olhar da gaivota a espiar rotas; sereias emergem antropomorfas tentadoras, cabeleira de espumas, corpo rendado de escamas em contraste com o rosário hagiográfico de suas madonas, santas e via-sacras, por último, mulheres bruxas da Ilha, feiticeiras, nuas ou vestidas, seios fartos, boca carnuda, vermelha, a exalar sensualidade.

Sim, entre o real e o imaginário não há fronteiras. Apenas, tangem o insondável e se cruzam no tempo. O tempo da Ilha, o tempo de Vera Sabino, voz liberta, iluminada, revelada na sinfonia de sua arte plena de epifanias e agora presente no seio do Planalto Central, sob o céu azul de Brasília.

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Por Lélia Pereira da Silva Nunes

Mestre em Administração Pública, Socióloga, Escritora, Professora, Adjunta IV, da Universidade Federal de Santa Catarina, Secretária Geral da Academia Catarinense de Letras (2014-2016). Titular do Conselho Estadual de Cultura, sendo Presidente da Câmara de Letras e membro da Câmara de Patrimônio Cultural; Conselheira da Comissão Nacional de Folclore; Associação Catarinense de Imprensa. “Roster Patrimônio Imaterial”- UNESCO / Am. Latina. Emérita do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Pertence ao IH da Ilha Terceira e a Associação Portuguesa de Escritores/APE. Secretária Geral da Academia Catarinense de Letras (2014-2016), Investigadora, área Sociologia Cultural.
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