Visita ao berço da web

Ethevaldo Siqueira

Nunca supus que 20 anos pudessem abalar tanto nosso mundo – na economia, na política, na cultura e na educação. É sobre esse tema que eu gostaria de convidar o leitor a uma reflexão. Vale a pena fazer um breve balanço das mudanças a que assistimos nessas duas décadas, começando pela mais importante delas: a internet. É incrível como 20 anos podem transformar a humanidade.
Nesse sentido, 2010 tem muito significado, pois marca os 20 anos da criação da teia mundial ou worldwide web (www), pelo físico inglês Tim Berners-Lee, que, em 1990, trabalhava no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, ou CERN, da sigla em francês de Centre European de la Recherche Nucleaire, primeira denominação da entidade que hoje se chama Laboratório Europeu de Física de Partículas, da Organização para a Pesquisa Nuclear, localizado em Genebra.

É claro que a internet não nasceu em 1990. Mas só a partir daquele ano ela teria condições de popularizar-se como popularizou-se. De apenas algumas centenas de milhares de usuários – acadêmicos, militares e burocratas – ela saltou nestes 20 anos para 2 bilhões de pessoas de todos os países, idades e profissões que dela se utilizam todos os dias.

Se você quer relembrar comigo um pouco desse progresso, volte ao ano de 1990. Comece por visitar o primeiro site do mundo, preparado exatamente pelo inventor da web, Berners-Lee. O endereço desse site é http://info.cern.ch (que, curiosamente, começa por lembrar o significado daquele ano para a humanidade). “O ano de 1990”,  diz a abertura do site, “foi um dos mais momentosos em eventos mundiais. Em fevereiro, Nelson Mandela foi libertado depois de 27 anos de cárcere. Em abril, o ônibus espacial Discovery transportou ao espaço e colocou em órbita o telescópio espacial Hubble. Em outubro, a Alemanha foi reunificada. E, então, no final de 1990, teve lugar uma revolução que mudou o modo como vivemos.”

Protocolo IP

Antes de Tim Berners-Lee, é preciso relembrar o trabalho de outro pioneiro que tornou possível a comunicação entre todos os computadores do mundo: Vinton Cerf. Foi esse matemático americano que quebrou a barreira da comunicação entre computadores de arquiteturas diferentes, ao inventar em 1973 o protocolo TCP-IP (sigla de Transport Control Protocol-Internet Protocol), hoje conhecido apenas como protocolo IP.

A comunicação entre computadores passou, então, a ser feita pela chamada comutação por pacotes, na qual os bits se agrupam, formando conjuntos parecidos com envelopes, que contêm até endereço por fora e mensagem por dentro. Resultado: o protocolo IP possibilita hoje que todos os computadores se comuniquem, não apenas com outros computadores na internet, mas com celulares, equipamentos de vídeo, bancos de dados e outros.

Tim Berners-Lee criou a worldwide web com base na linguagem Hypertext Markup Language (HTML) em 1990. Seu trabalho havia começado em 1989, quando propôs ao laboratório CERN um projeto de comunicação com o uso de hipertexto, em que vários documentos poderiam ser interligados por referências eletrônicas. Trabalhando num computador pessoal NeXT, o físico desenvolveu então o HTML (protocolo para troca de arquivos), a Universal Resource Locator (URL, sistema de endereços) e o primeiro navegador.

Em 6 de agosto de 1991, ele tornou o projeto público, permitindo que as pessoas baixassem o servidor e o navegador que ele desenvolveu. O primeiro website do mundo foi, então, o do Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), no endereço http://info.cern.ch. Inicialmente, o site trazia explicações sobre o que é a web, como obter um navegador e como configurar um servidor de web. Berners-Lee tornou suas ideias disponíveis livremente, sem patentes ou cobrança de royalties.

Um idealista

Numa entrevista que concedeu a este jornalista em 2004, Berner-Lee explicou por que não registrou a patente de seu invento: “Diversos colegas me aconselharam a registrar a patente da www. Mas eu não quis. Achei que deveria doar à humanidade aquela ferramenta tão útil à comunicação. Nunca pensei em ficar milionário. Ganho bem e tenho tudo que mais desejo”.

Berners-Lee é, portanto, um idealista. Abriu mão dos direitos de propriedade intelectual da invenção da worldwide web, deixando deliberadamente de patenteá-la. Se o fizesse, poderia ser hoje o homem mais rico do mundo.

O governo da Finlândia homenageou-o em 2004 com o Prêmio de Tecnologia do Milênio, oferecendo-lhe também um cheque de 1 milhão de euros (US$ 1,350 milhão). Fundou o Worldwide Web Consortium em 1994, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Esse consórcio é uma reunião de empresas que têm como objetivo criar padrões e recomendações para aprimorar a qualidade da web. Em dezembro de 2004, Berners-Lee aceitou também o convite para assumir a cátedra de Ciências da Computação, School of Electronics and Computer Science, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, para conduzir o novo e ambicioso projeto da web semântica.

A proposta da web semântica é que os computadores não somente apresentem as informações contidas numa página, como ocorre hoje, mas também possam “entender” cada informação, classificada de maneira acessível às máquinas, com ferramentas como a eXtensible Markup Language (XML) e a Resource Description Framework (RDF).

“A web semântica é uma extensão da web atual, em que a informação recebe um significado bem definido, permitindo que computadores e pessoas trabalhem melhor em cooperação”, escreveu Berners-Lee em artigo na revista Scientific American, publicado em maio de 2001.

Ao longo de 1991, surgiram os primeiros servidores instalados em outras instituições europeias e, em dezembro do mesmo ano, era instalado o primeiro servidor nos Estados Unidos, no Centro do Acelerador Linear de Stanford (Slac, na sigla em inglês). Em novembro de 1992, havia 26 servidores no mundo. Já em outubro de 1993, eram 200 máquinas em funcionamento – então com o nome de web servers (servidores da web ou da internet).

Em fevereiro de 1993, a Universidade de Illinois, em Urbana Champaigne, lançou a primeira versão do browser Mosaic, que tornou a internet acessível aos usuários de PCs e, em especial, do Macintosh da Apple.

No Brasil, em 1993

A Universidade de São Paulo (USP) sempre acompanhou de perto o desenvolvimento das redes de comunicação, primeiro com a BitNet, no final dos anos 1980 e começo dos 1990, e, depois, com a própria internet. Pessoalmente, passei a utilizá-la, ainda na Escola de Comunicações da USP, como professor de Telemática. Os alunos ficavam encantados com a possibilidade de conectar-se com o mundo, apesar das dificuldades e da pobreza de recursos da web naquele tempo.

Um dos pioneiros da internet no Brasil foi Aleksandar Mandic, que começou exatamente com uma empresa de BBS (Bulletin Board System). Mandic abriu um negócio em 1990, cujo o capital era um micro 286, uma linha telefônica e ele próprio. Do começo, no quarto de sua casa, até ser vendida em 1997, a Mandic virou case em Harvard e agora abre novamente suas portas com outra ideia inovadora: oferecer serviço de e-mail diferenciado para aqueles que precisam do e-mail para trabalhar.

O risco do monopólio

Testemunhei também uma das definições mais importantes do papel da internet no Brasil, em 1995, quando o ex-ministro Sérgio Motta se interessou pessoalmente pelo futuro da internet. Naquela época, começava no País uma discussão – semelhante à do sexo dos anjos – baseada na pergunta: “Internet é informática ou telecomunicação?”

Se fosse informática, não caberia nenhuma providência do Ministério das Comunicações. Depois de dois meses, chegaram à conclusão brilhante de que a rede poderia ser o primeiro grande exemplo de convergência de três áreas: tecnologia da informação, telecomunicações e multimídia (ou conteúdo).

Em abril de 1995, a Embratel, ainda monopolista e estatal, decidiu assumir a frente do processo de implantação da infraestrutura de rede destinada ao funcionamento comercial da internet no Brasil. Só havia um pequeno equívoco: a empresa pleiteava o monopólio do transporte e do acesso da web no País. Havia milhares de interessados em obter um endereço na web, mas a Embratel ainda não estava preparada para atender à demanda e ainda proclamava sua intenção de monopolizar o acesso e o uso das redes públicas.

Em debates acalorados, diversos especialistas levaram a Sérgio Motta não apenas o protesto mas, também, as sugestões para que o ministro impedisse a operadora de longa distância ou qualquer outra empresa privada ou estatal, do Sistema Telebrás ou não, de exercer qualquer tipo de monopólio ou exclusividade de operação da internet.

O problema deu tanta dor de cabeça aos dirigentes da Embratel na época que o assunto passou a ser chamado de infernet – especialmente quando uma portaria publicada no dia 1° de junho de 1995, assinada por Sérgio Motta, abriu o uso das redes públicas ao acesso da web, definindo também a internet como sendo o “nome genérico que designa o conjunto de redes, meios de transmissão e comutação, roteadores, equipamentos e protocolos necessários à comunicação entre computadores, bem como o software e os dados contidos nestes computadores”.

Obter um endereço eletrônico e o acesso aos serviços na Embratel, nesses primeiros meses de 1995, era um exercício de paciência que poderia levar meses de espera. Vários amigos estimularam até uma das filhas de Sérgio Motta a pleitear os serviços, sem mencionar seu parentesco com o ministro, para mostrar com maior realismo e credibilidade a lentidão no atendimento à demanda pela Embratel estatal. O exemplo dentro de casa do ministro funcionou, e foi a gota d’água final na persuasão de Serjão, que se convenceu definitivamente da inconveniência do monopólio na internet.

No Brasil, 75 milhões

A expansão da internet ocorrida de 1995 até hoje no Brasil pode ser resumida nos números seguintes. De pouco mais de 50 mil usuários no fim de maio de 1995, o Brasil alcançou 75 milhões no fim de outubro de 2010. Mesmo depois do estouro da bolha e de suas consequências catastróficas no começo da década, no mundo e no Brasil – eliminando centenas ou milhares de empresas ponto-com que não tinham estrutura nem condições de sucesso –, a internet brasileira consolidou sua posição e seu papel na sociedade.

Com a privatização das telecomunicações, a oferta de meios de transporte dos sinais, bem como de acesso e conteúdo, fez explodir o desenvolvimento da internet no País. Passando a competir num novo ambiente, a Embratel acabou mostrando sua competência e a qualidade de sua infraestrutura, na implementação do maior backbone da América Latina.

O que nos faltou até há pouco foi uma política nacional de desenvolvimento da banda larga. É claro que, se o governo tivesse elaborado políticas públicas, com metas de universalização, legislação adequada, desoneração fiscal desses serviços e, principalmente, um plano nacional de banda larga – sério e digno desse nome – em comum acordo com as operadoras, caberia exigir dessas empresas o cumprimento de objetivos e metas, em lugar de ficar simplesmente criticando essas prestadoras de serviço.

Quando o governo é frouxo e omisso no cumprimento de seu papel de regulador, fiscalizador e formulador de estratégias de desenvolvimento setorial, quando deixa tudo por conta das operadoras, sem nenhuma política pública e nenhum plano, o resultado é sempre insatisfatório, em qualquer país do mundo. Foi o que aconteceu no Brasil até o começo de 2010.

Ora, banda larga para internet é comunicação de dados e não telefonia. Assim, as operadoras alegam que seus contratos de concessão nunca previram nenhuma obrigação de oferecer acesso de banda larga. E elas têm razão porque o governo Lula não moveu uma palha na formulação de uma política nacional de banda larga ou de um plano setorial.

Vale a pena voltarmos a esses aspectos para aprofundá-los, num próximo artigo.

Veja no Estadão: http://blogs.estadao.com.br/ethevaldo-siqueira/

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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