Zininho, o eterno poeta de Florianópolis

Um poeta de corpo e alma. Assim era Cláudio Alvim Barbosa, cuja obra vai muito além do hino de Florianópolis, o Rancho de Amor à Ilha.

Claudia Barbosa tenta reunir e catalogar arquivos deixados por Zininho – Foto: Marco Santiago

Ele também escreveu os hinos de Rio Negro (PR) e de Joinville, dá nome à avenida Beira-Mar Continental e a uma agência bancária na Praça 15.

O popular Zininho – como é conhecido até hoje, nasceu em 8 de maio de 1929, na localidade de Três Riachos, em Biguaçu, mas cresceu no Largo 13 de Maio, na Capital. Chamava-se, na verdade, Orzino, nome que durou uns cinco anos. Quando o avô paterno Manoel dos Santos Barbosa foi registrar o neto em cartório, achou melhor dar o nome de Cláudio. O apelido, entretanto, já havia se consolidado e assim ficou conhecido por toda a vida.

Zininho perdeu o pai, Godofredo, por volta dos dois anos de idade, vítima de traumatismo craniano ao mergulhar em um rio em Santo Amaro da Imperatriz. A mãe, Teodora, com apenas 19 anos, acabou casando novamente depois de um ano, e teve outra filha, mas quem o criou foi a avó Maria Machado de Souza Barbosa.

No Largo 13 de Maio, onde passou a infância, começou a se encantar com o samba, nos blocos de carnaval. O lugar ficou eternizado na canção homônima, feita em parceria com o pianista Aldo Gonzaga, uma das quase 100 músicas compostas por Zininho nos seus 69 anos de vida. Casou aos 19, com a dona Ivette (90 anos), com quem teve quatro filhos: Sandra (70), Jairo (68), Rose (66) e Cláudia (50).

A era do rádio

Toda sua carreira está ligada ao samba, à música e às rádios. O ator Valdir Brasil, que tinha um bloco de samba, foi quem levou Zininho para o meio musical. Ingressou aos 18 anos na Rádio Guarujá, na Rua João Pinto, onde foi operador de som, produtor e roteirista de programas de rádio que eram gravados ao vivo, aos domingos. “Um deles era “O gentleman do samba”, apresentado por Dib Cherem e outros locutores”, lembra o filho Jairo Alvim Barbosa. Permaneceu na rádio de 1948 a 1954.

No ano seguinte, foi para a Diário da Manhã (atual CBN Diário), onde ficou até 1965. “Lá, atuava como operador e técnico de som, gravou discos em acetato, programas musicais e jornalísticos, e aprendeu a produzir jingles – o que só se fazia na época no Rio Grande do Sul ou em São Paulo. Era um autodidata; fazia cópia de tudo em fita magnética e levava para casa, o que configurou um arquivo enorme dos programas de rádio daquela época, que hoje está na Casa da Memória”, diz Jairo.

Até a estrela Elis Regina gravou uma de suas criações no final dos anos 50. “A música “Se amor é isso” foi feita em parceria com Luiz Henrique Rosa e gravada por ela quando era bem novinha, devia ter uns 17 anos, e cantava no Conjunto Norberto Baldauf, famoso na época”, afirma Jairo.

Outro programa produzido por Zininho era “O Bar da Noite”,uma espécie de crônica que ia ao ar toda sexta à noite, com atores e cantores, entre eles Neide Mariarrosa, estrela do rádio. “Ele escrevia o roteiro do programa sentado na mesa do bar, em frente à rádio, pouco antes de ir ao ar”, conta a filha caçula, Claudia Barbosa.

Na década de 1960, Zininho compôs diversos sambas-enredos para a escola Protegidos da Princesa e era figura conhecida na vida noturna da cidade. Morreu em 5 de setembro de 1998, no hospital Nereu Ramos, de enfisema pulmonar. “Mesmo doente, estava sempre criando e trabalhando e como grande parte dos músicos, especialmente dos anos 40 e 50, não se preocupou em organizar seus arquivos”, diz Jairo.

O trabalho de reunir esse acervo fica a cargo dos filhos, em especial da mais nova, Claudia Barbosa, que luta para conseguir recursos que assegurem a perpetuação da obra do pai. “Preservar a memória é difícil, mas ele deixou tanta coisa que até hoje descubro materiais novos. Recentemente achei uma pasta cheia de negativos de fotos, além de muitas anotações”, conta Claudia.

Na casa dela, a memória de Zininho está presente por todos os lados. Bilhetes, cartas, letras inacabadas do que poderiam virar canções na voz de vários intérpretes brasileiros. “Essa semana achei uma gravação dele cantando “Magia do Morro”, em um arquivo já digitalizado das fitas de rolo, mas ainda tenho cerca de 3 mil fitas K-7 aguardando digitalização”, diz.

Preservando a memória

Para preservar esse acervo, Cláudia trabalha em várias frentes. O esforço ganhou fôlego no ano passado, quando realizou uma exposição em parceria com a Fundação Franklin Cascaes relembrando os 20 anos da morte do poeta.

Na próxima quarta (8), dia em que o artista completaria 90 anos de idade, a mesma fundação reúne músicos, às 12h30, em um show na Praça 15 em homenagem ao poeta ilhéu. À noite, a programação inclui a exibição de um documentário e fotos do artista, no Teatro da Ubro.

Outro projeto inclui um songbook, com partituras e letras das músicas, ilustrações e a história de Zininho; e a gravação de um disco com 16 canções do pai. “Através da lei municipal de incentivo à cultura, vamos reunir arranjadores, instrumentistas e intérpretes locais para eternizar mais algumas músicas de Zininho”, diz Claudia. Com direção de Raphael Galcer, o lançamento está previsto para setembro, mês da morte do poeta. “A ideia é criar uma semana da cultura local, tocando essas músicas nas rádios e divulgando CDs, livros, etc”, revela.

Poeta nato e músico intuitivo

Um dos amigos de Zininho, o violinista, arranjador e compositor Wagner Segura, diz que o conheceu através de um amigo em comum, o jornalista Aldírio Simões. “Aldírio era um grande fomentador da cultura na cidade e amigo de Zininho, e acabamos nos cruzando durante algumas apresentações que eu fazia com o grupo Nosso Choro. Criamos muita afinidade e logo passei a frequentar a casa dele, vendo os arquivos que ele tinha com músicas e programas da Rádio Diário da Manhã da década de 60”, conta.

Em suas apresentações, Segura chegou a tocar algumas vezes com Zininho e Neide Mariarrosa, estrela do rádio cujo talento é comparado ao de Elizeth Cardoso, uma das melhores intérpretes da música popular brasileira. “Também participei como arranjador de umas quatro canções do CD produzido durante o show ‘Zininho, Jamais Algum Poeta Teve Tanto Pra Cantar’ em 1994, no Teatro Álvaro de Carvalho”, relembra. A obra é o único registro da obra do artista até hoje. “Zininho foi um poeta nato que deixou uma obra bem bacana, com marchinhas e sambas de qualidade e outras composições além do eterno Rancho de Amor à Ilha”, diz.

Outro amigo, o publicitário e jornalista Emílio Cerri, recorda com carinho da convivência com o poeta. “Conheci o Zininho em 1962. Na época ele trabalhava na Diário da Manhã eu na extinta rádio Anita Garibaldi. Em paralelo, fui co-fundador da primeira agência de propaganda de Florianópolis, a A.S. Propague, junto com Antunes Severo, através da qual fazia jingles para o Zininho. Ele produzia o jingle e eu ia assistir a gravação”, diz.

Com o tempo, a amizade foi se sedimentando e não esmoreceu mesmo durante os anos em que Cerri mudou-se do Estado. “Quando retornei nos anos 70 e retomei a agência, tínhamos grandes clientes, como os bancos estaduais. Um deles encomendou um um trabalho diferente: queria distribuir uma música aos clientes. Então, saímos eu e o Zininho, um dia, às 4h da manhã, e após beber um bocado no bar Universal, no Centro, criamos a música Rancho de Amor à Vida (posterior ao hino de Florianópolis) que foi gravada no Rio de Janeiro e distribuída em discos compactos aos clientes do banco”, recorda.

“Zininho era uma pessoa generosa, doce, que nunca ficou rico como poderia ter ficado e viveu uma vida modesta. Quando ele entrava em um local, a alegria era certa; uma pessoa que não tinha a capacidade de fazer inimigos”, diz Cerri. “Convivemos até ele partir. Era um fumante inveterado e isso abreviou a vida dele”, conta.

Cerri destaca a importância do poeta na memória cultural da cidade. “Sua importância é fundamental na música popular, criou sambas e teve músicas gravadas por Luiz Henrique Rosa e outros talentos”, destaca o amigo. “Se alguém colocasse uma partitura na frente dele, não entendia nada, não tocava nenhum instrumento, nem mesmo o pandeiro. Mas foi um criador musical intuitivo além de compositor multidisciplinar, que fazia tanto trabalhos para fins comerciais quanto de música popular. Andava com um gravador e começava a compor, depois pedia para algum maestro transformar aquilo em música e ia corrigindo os músicos durante a execução, tudo baseado em sua intuição musical. Era um gênio”, diz o amigo.

Serviço

O quê: Show ‘Zininho: 90 anos de Amor à Ilha’
Quando: quarta-feira, 08/05, das 12h30 às 13h30
Onde: Praça 15 – Centro – Florianópolis

O quê: Exibição de documentário e programação cultural
Quando: quarta-feira, 08/05, a partir das 19h
Onde: Teatro da Ubro – Centro

(ND, 04/05/2019)

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