Zininho: o poeta empreendedor

Getúlio Prates, Elon Garcia, Zininho, Mauro Amorim, Antunes Severo

Cláudio Alvim Barbosa, o poeta Zininho, autor do Rancho do Amor à Ilha, o hino da cidade-capital do estado de Santa Catarina, se vivo estivesse, estaria completando 81 anos neste dia oito de maio. A data, entretanto, além de todo o carinho que temos pelo poeta, é também oportuna para que se fale do cidadão e de seus empreendimentos na vida comercial. Do poeta, letrista, compositor e cantor temos registros ainda esparsos, é verdade, mas ainda assim  um pouco mais do pouco que se sabe do Zininho empreendedor.

Pobre, de família humilde, o seresteiro precisava complementar os pequenos ganhos de artista com atividades menos charmosas, porém, mais rentáveis. Incorporou responsabilidades de um homem de negócios: foi taxista, dono de loja de discos, proprietário de serviço de alto falantes, produtor autônomo de serviços de áudio e dono de estúdio de gravação de comerciais para rádio e televisão.

Ailor, locutor-chefe e Zininho, o empresário

Dessas atividades, o primeiro empreendimento na área de comunicação foi a Empresa de Propaganda Tabajara – um serviço de alto-falantes que funcionou numa das salas do primeiro andar da casa nº 1.651 da Rua Coronel Pedro Demoro, no bairro Canto que fica entre o Estreito e o Balneário na região continental da cidade de Florianópolis. Ali se localizavam a recepção, a biblioteca e o estúdio de onde o som era distribuído para os alto-falantes, espécie de cornetas gigantes com mais de meio metro de diâmetro afixadas nos postes das ruas adjacentes.

Amilton, discotecário, Ailor, gerente e Zininho, o empreendedorA Capital catarinense que até o final de 1954 contava com apenas uma emissora, a Rádio Guarujá, entrou em 1955 com as duas primeiras concorrentes: rádios Anita Garibaldi e Diário da Manhã. O serviço de alto-falantes embalado pelo agito provocado pelas novas estações transmissoras, ia na onda caprichando na programação musical a base dos maiores cantores brasileiros da época: Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Silvio Caldas, as irmãs Linda e Dircinha Batista, Orlando Silva, Emilinha Borba, Carlos Galhardo, Marlene, Vicente Celestino, Ângela Maria e mais uma centena de jovens valores que todos os anos eram revelados pelos programas de auditório das emissoras do Rio, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.

Estúdio na Rua Cel. Pedro de Moro, entre as ruas Antonieta e Aracy

O plano comercial de Zininho havia sido elaborado com cuidado, a partir da localização. O bairro Canto é de há muito o centro comercial rodeado de bairros com forte componente social, particularmente o Balneário e o Estreito. Nessa região estão localizados o Seis de Janeiro – principal clube social da parte continental da cidade – a Igreja matriz na Praça Nossa Senhora de Fátima e na mesma rua do serviço de alto-falantes o Cris Hotel, o mais antigo do pedaço, o Cine Glória de saudosa memória e, a uma quadra, A Soberana – uma enorme loja de produtos alimentícios que iam desde as famosas balas Rocôco, aos mais requintados tipos de bolos, além de embutidos, pães de todos os tipos, vinhos das melhores procedências e bacalhau norueguês com selinho Viking e tudo o mais. Era, respeitadas as devidas proporções, um centro de atração assemelhado aos shoppings da atualidade.

Zininho desfila pelas ruas do bairro no flamante Ford 1950

Com o sucesso da Rádio Diário da Manhã Zininho, outros músicos e cantores, locutores e todo o departamento de radioteatro da Rádio Guarujá transferiram-se para a nova emissora, que, inclusive pagava melhores salários e cachês para o seu elenco. Se isso foi bom para o artista Zininho, foi mau para o serviço de alto-falantes. Absorvido pelos compromissos de cantor, produtor, compositor e radioator o poeta desinteressou-se pelo negócio. Fechou a empresa, montou um estúdio em casa onde gravava em disco de acetato a publicidade que rodava nos intervalos comerciais das emissoras da Capital.

E assim continuou até os anos de 1960 quando começou o declínio do rádio que se rendia, por incompetência (ou desídia) empresarial dos concessionários dos canais de radiodifusão, ao apelo da televisão, que mesmo sem cores e muito pouca imaginação fascinava os primeiros telespectadores.

Inaugurado na década de 1950 como Cris hoje é o Medeiros e fica em frente ao prédio do estúdio

Vendo ruir parte do sonho por muito tempo acalentado de fazer o que gostava no rádio, Zininho procurou mercados maiores. No início da década de 1970 transferiu-se para Curitiba onde instalou a CAB – Cláudio Alvim Barbosa Comunicação, uma empresa que logo se destacou na praça pela qualidade e requinte de seu trabalho de pós-edição, produção e gravação de vinhetas e comerciais – spots e jingles – para o rádio e televisão do Paraná.

Acompanhando as transformações do mercado e os avanços tecnológicos que requeriam cada vez maiores investimentos, o poeta falou mais alto e ele volta para o seu torrão amado.
Continuou gravando, mas já sem o ímpeto dos tempos passados. Dedicou-se ao cuidado do acervo que por tantos anos formara e que hoje está a disposição na Casa da Memória de Florianópolis. Contratado pela Câmara de Vereadores como especialista em áudio pode dar maior atenção ao imenso legado que por seu carinho e grandeza hoje representa muito para a cultura musical e para a comunicação de Santa Catarina.

Colaborou Dirney Vieira.
Dirney, que à época se apresentava nos programas de auditório da Rádio Diário da Manhã iniciando sua carreira de cantora, posteriormente veio a casar com o jogar de futebol Zilton Altino Vieira primo de dona Ivette, mulher de Zininho. Também pode acompanhar de perto a vida da Empresa de Propaganda Tabajara, pois o Salão de Beleza de dona Mariquinha, sua mãe ficava no mesmo prédio e no mesmo andar do estúdio.

Trechos de áudio do acervo do maestro José Ribeiro (Zezinho) e RBS/SC

1 responder
  1. Cláudia Barbosa says:

    Queridíssimo… Que rica a tua matéria sobre o meu pai. Sabe que, cada vez que leio uma matéria tua, descubro coisas sobre ele que eu não sabia? Pois é… há vantagens e desvantagens de ser a ‘filha caçula’, né? A desvantagem é o menor tempo de convívio e de participação na história deste cara tão especial e tão à frente do seu tempo; deste que foi, é e sempre será o homem mais importante da minha vida. Já a vantagem, além dos muitos mimos que recebi durante o tempo que convivemos, é receber de herança amigos como tu, que além de ser alma da mais elevada nobreza ainda me presenteia com partes importantes da história que eu não pude participar (ao menos fisicamente), o que ainda me possibilita conhecer e entender melhor minha própria história.
    Obrigada, amigo.. de coração!
    Gostaria de saber se posso ter o contato da Sra. Dirney Vieira (ou se preferir, que tu passes meus contatos à ela), pois adoraria conhecê-la e registrar as histórias que ela tem pra contar e que, com certeza, serão de grande valia ao resgate da memória da nossa cidade.
    Beijos, muitos!

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