Zininho, uma canção para Florianópolis

Aqui começa o relato da história do amigo, poeta e compositor narrada por três cúmplices de Zininho: um apaixonado assumido, uma pesquisadora dedicada e uma filha deslumbrada. Nada mais cristalino e belo do que falar apaixonadamente. Assumir a emoção, a voz travada, a lágrima rolando, a vontade de morrer também, ou de viver se for preciso.
Por Ricardo Medeiros, Dieve Oehme e Cláudia Barbosa.

Trem da meia-noite

Era quase meia-noite e Cláudio Alvim Barbosa preparava-se para uma nova viagem. Foram tantas idas e vindas por diversos cantos do sul e sudeste do Brasil que, para ele, esperar o trem já era quase uma rotina nos últimos anos. A família, apegada como sempre, começava a sofrer de saudade antes mesmo de vê-lo partir. Cláudia, a filha caçula, olhava atenta para o pai como a implorar um último afago. Afinal, o poeta vivia dizendo que ela era o seu “neném”, a “temporona”.

Com cinco minutos de atraso, o expresso chegou devagarinho e estacionou para Zininho embarcar. Despediu-se da mulher, filhos e netos, mas certamente não estava de todo triste, pois iria encontrar com outros parentes que não via há muito tempo e matar as saudades de alguns velhos amigos de boemia. 

No caminho, trocou de roupa e vestiu-se como sempre gostou: terno branco, camisa de gola olímpica preta e sapatos brancos. Era o Gentleman do Samba, personagem que marcou a época de ouro na Rádio Guarujá, no final da década de 40. O reencontro com os familiares parecia ser inesquecível.

Já era dia quando o trem chegou finalmente ao destino. As manhãs de primavera são sempre muito bonitas, em qualquer lugar do mundo. Como que a procurar alguém, o compositor desceu na estação, e olhou para os lados até encontrar o que esperava. Sim, estavam todos lá para recebê-lo, os parentes e os amigos queridos.

Enquanto caminhava ao encontro dos familiares, a vida passava rápido por sua mente. Lembranças das homenagens, do último disco gravado ao vivo no Teatro Álvaro de Carvalho, em 1994, e dos tempos da Diário da Manhã e da Rádio Guarujá. Andando um pouco mais depressa, vinham imagens nítidas das noites nos bares de Florianópolis, entre “cervejotas” geladas; o salão Dó-ré-mi, o serviço de som Tabajara, o primeiro carro de praça na cidade, o dia do casamento com Ivette, 31 de dezembro de 1947, resultado de um curtíssimo namoro. E, de repente, ao chegar, viu-se ainda menino, na década de 30, já apaixonado pelo mundo do rádio. Voltando um pouco mais no tempo, estava quase sendo batizado como Orzino pelo pai, que acabou mudando de idéia e lhe dando o nome de Cláudio. Se escapou de integrar a lista de nomes esdrúxulos do Cartório do Estreito, porém, não pôde evitar ficar conhecido e entrar para o rol dos “iluminados” com o apelido que lhe restou daquele nome esquisito:

– Zininho. Que bom que você veio!

Feliz, o poeta sentou-se com o grupo que o recebeu com grande carinho, no primeiro bar que encontrou na estação. Era preciso comemorar o tão aguardado reencontro. Entre uma música e outra, uma cerveja e outra, o compositor olhou para todos ali… a mãe Teodora, o brilhante jogador “Camisa”, a avó Maria Barbosa, Luiz Henrique, Adolfo Zigelli, Neide Mariarrosa e muitos outros amigos. Voltou os olhos ao redor do ambiente, deu uma pitada no cigarro, e entre as pequenas nuvens de fumaça, viu ao fundo a placa da estação “Eternidade”. Naquele momento, num rasgo de inspiração, letra e música surgiram de repente, como lhe era peculiar. Compôs então o seu último rancho… Rancho do Amor Eterno. Mais uma vez, o título foi dado por Zigelli, porque sabia que esteja onde estiver, o poeta será amado e lembrado eternamente em Florianópolis.

Quem dera Zininho não tivesse partido, ou que a sua viagem tivesse volta marcada. Mas, infelizmente, quando dizia estar esperando o “trem”, era apenas mais um jeitinho debochado e brincalhão de encarar os problemas de saúde e a própria morte, sempre à espreita.

Cláudio Alvim Barbosa faleceu na madrugada do dia 05 de setembro de 1998, no apartamento n° 9 do Hospital Nereu Ramos, vítima de enfisema pulmonar, câncer de próstata e complicações renais. Ele, que durante muitos anos coordenou o serviço de som do plenário da Câmara de Vereadores, foi velado em seu local de trabalho. Com os acordes do hino que compôs para a cidade que tanto amou, o Rancho do Amor à Ilha, executado pela Banda Comercial de Florianópolis, o poeta recebeu as últimas homenagens.

A notícia de seu falecimento foi manchete dos principais jornais da cidade.

“Zininho partiu num sábado chuvoso, deixando a cidade de luto. Pela manhã, quem passava pela Praça XV, em frente à Câmara Municipal, parecia não saber que no interior da sede do legislativo estava sendo velado o autor do Rancho do Amor à Ilha. Ele deixou a mulher, quatro filhos e oito netos. Zininho foi sepultado vestindo um temo branco, com uma comenda de cidadão honorário de Florianópolis na lapela e camisa de gola olímpica preta. Sobre seu corpo foram colocados crisântemos brancos e amarelos. Entre os dedos magros da mão, um rosário de prata”.

Cláudio Alvim Barbosa foi sepultado às 17 horas de sábado, dia 05, na alameda B do Cemitério São Francisco de Assis, no Itacorubi. Além de deixar muitas saudades entre familiares e amigos, Zininho deixou também um acervo de mais de três mil fitas de rolo, vídeo e cassete, com gravações dos principais programas de rádio das décadas de 40 a 70, entrevistas com políticos, artistas e personagens do mundo do samba, que representam boa parte da memória cultural de Florianópolis.

No estúdio que mantinha, num apartamento no Abraão, ficaram também cerca de 700 discos e 300 fotos. Todo o material dará suporte à criação de um museu da Imagem e do Som na Capital, batizado de Casa da Memória, coordenada pela Fundação Franklin Cascaes.

Capítulo 1, do livro Zininho, uma canção para Florianópolis, de Ricardo Medeiros, Dieve Oehme e Cláudia Barbosa. Florianópolis: Editora Insular/Fundação Franklin Cascaes, 2000.

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