Zininho, uma presença que o tempo não leva

No dia 08 de maio de 2014 Cláudio Alvim Barbosa completaria 85 anos. Em sua homenagem revivemos a história de uma de suas mais populares canções: Rancho do Amor à Ilha, atual Hino da Cidade de Florianópolis. Eis como isso aconteceu.

zininho-malzebier

Luiz Gonzaga de Bem, em 1964 cursava a Faculdade de Direito de Santa Catarina e acabara de ser eleito vice-presidente para assuntos de Imprensa do DCE – Diretório Central dos Estudantes. Ao mesmo tempo trabalhava na assessoria de comunicação do DNER/SC – Departamento Nacional de Estradas de Rodagem. O emprego durou pouco, mal o governo militar assumiu ele foi um dos primeiros a ser demitido sob o argumento de subversão.

O futuro advogado não se deu por vencido e foi procurar emprego na mais recente emissora de Florianópolis: a Rádio Santa Catarina. Jali Meirinho, o editor chefe que inovava no jornalismo local contratou o candidato a repórter para trabalhar fazendo cobertura das atividades da Câmara Municipal de Florianópolis e da Assembleia Legislativa.

Animado pelas possibilidades que a atuação do jornalismo proporcionava, o garoto Luiz Gonzaga de Bem fez parceria com Cyro Barreto – experimentado radialista – e juntos criaram a coluna Vitrine Legislativa no jornal Diário Catarinense, então dirigido por Alírio Bossle, então presidente da ACI/Casa do Jornalista.

Dado o dinamismo de sua atuação, o jovem repórter é convidado a ocupar a assessoria de comunicação do vereador Jorge Pinheiro que exercia as funções de líder do PDC – Partido Democrata Cristão – e do governo Municipal onde pontificava o general Paulo Weber Vieira da Rosa, popularmente conhecido como general Rosinha e que fora nomeado prefeito da Capital pelo governo militar. O inusitado é que as relações entre o prefeito e o jornalista não eram nada amistosas, pois Vieira da Rosa, logo após o golpe militar, movera processo contra Luiz Gonzaga de Bem por ter este publicado “matéria desabonadora no jornal Reforma (da UCE) no início do ano”.

Agora, porém, a situação mudara. O general ocupava um cargo político e o jornalista dispunha de espaços em dois veículos de comunicação locais. Jorge Pinheiro conseguira harmonizar os interesses de ambas as partes.

Um dos primeiros desafios para o novo assessor veio de uma reunião com os secretários de Finanças Ivan Matos e o de Administração Jauro Dêntice Linhares. É que o prefeito precisava elevar os impostos e tendo em vista a sua condição de militar nomeado para o cargo isso pegaria mal. Os secretários deixaram claro que o novo assessor deveria criar um fato com repercussão positiva que pudesse popularizar a administração do general Viera da Rosa, amenizando o impacto dos aumentos do IPTU.

Com pouca experiência, Luiz Gonzaga de Bem pediu ajuda ao colega Donato Ramos então diretor artístico da Rádio Santa Catarina e, portanto, tinha experiência em eventos promocionais. Da conversa surgiu a ideia de se realizar um concurso para eleger Uma Canção para Florianópolis. Em favor da sugestão destaca-se o fato de que todos os anos, pelo menos duas emissoras locais realizavam concursos para eleger as melhores músicas do carnaval da cidade.

E não deu outra: a ideia do concurso foi aprovada pelo prefeito, o concurso foi realizado e a música escolhida foi tal sucesso que virou o hino oficial da cidade. O Hino Oficial do Município de Florianópolis foi escolhido em um concurso promovido em 1965 pela Prefeitura Municipal da cidade e a canção vencedora foi oficializada através do Projeto de Lei nº 800/68, apresentado pelo então vereador Waldemar da Silva Filho, que mais tarde seria prefeito da capital. Em 08 de julho de 1968 o projeto foi sancionado, vindo a ser a lei nº 871.

Ouça entrevista de Antunes Severo com Donato Ramos sobre esta história

 

Elizeth-Cardoso

Recepção à cantora Elizeth Cardoso na Boate Plaza. Antunes (E), Elizeth, Rozendo Lima, Zininho, Neide Maria, Zury Machado. Em pé, Maestro Aldo Gonzaga e o cantor Claudino Silva.

Um pouco mais sobre Zininho

Nasceu no dia oito de maio de 1929, na localidade de Três Riachos, município de Biguaçú. Na infância, viveu no Largo 13 de Maio – atual Praça Tancredo Neves, em Florianópolis, tendo o antigo casario da rua Menino Deus e o Hospital de Caridade como vizinhos. Sua adolescência passou no continente, no Balneário do Estreito e desde jovem, foi atraído por atividades radiofônicas.

Trabalhou nas rádios Guarujá e Diário da Manhã de Florianópolis, onde fez de tudo um pouco: cantor, radioator, sonoplasta, técnico de som e produtor, além de ser um exímio jinglista.

Foi nessa época de ouro do rádio, nas décadas de 1940 a 1960, que compôs mais de cem músicas, entre marchinhas a sambas-canção. Destacam-se “A Rosa e o Jasmim”, “Quem é que não chora”, “Princesinha da Ilha”, “Rancho do Amor à Ilha”, “Eu sou assim”, “O que seria de mim”, “Num cantinho qualquer”, “Jardim dos meus amores”, “A Margarida e o malmequer”, “Viva a natureza”, “É tão tarde”, “Pra que negar”, “Insônia”, “Falta de você”, “Saudade, meu bem, saudade”, “Se o amor é isso”, “Desespero”, “Largo 13 de Maio”, “Magia do Morro”, “Você há de pagar”, “Deixa a porta aberta”, “Miramar”, “Preconceito Racial”, “Homenagem à Princesa”.

Mesmo com as mudanças no rádio, o poeta continuou a criar e a gravar. Zininho recolheu-se em seu apartamento, no bairro do Abraão, em função de um enfisema pulmonar, causa do seu falecimento em cinco de setembro de 1998.

Veja outras matérias sobre Zininho no Caros Ouvintes

Rancho do Amor à Ilha

Um pedacinho de terra, perdido no mar!…
Num pedacinho de terra, beleza sem par…
Jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar!
Num pedacinho de terra
belezas sem par!
Ilha da moça faceira,
da velha rendeira tradicional
Ilha da velha figueira
onde em tarde fagueira
vou ler meu jornal.
Tua lagoa formosa
ternura de rosa
poema ao luar,
cristal onde a lua
vaidosa, sestrosa, dengosa
vem se espelhar…

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *